quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.730(2021)

        

                        A prova.

 

            Beto se conhecia muito bem, tinha a nítida noção do que era e do que não era possível fazer. As vezes se surpreendia com certas coisas, mas no fundo surgia uma revolta involuntária por deixar se levar por algo que achava grandioso e ao final percebia que não era nada daquilo que imaginara. Pressentia o sentimento que lhe dava uma proteção contra algo que não atinava o que poderia ser. Ao fazer alguma coisa que fosse no passado não o faria, se enchia de orgulho, se congratulava pela ousadia. Quando conheceu João, se alimentou pelo sentimento forte a ponto de achar que enfrentaria qualquer perigo que fosse. No entanto ao ser confrontado ao desafio que lhe fora proposto, a fraqueza escondida se aflorou causando-lhe medo. Sentiu-se pequeno, frágil, tímido, envergonhado a ponto de imaginar que algo acontecesse e o desafio fosse cancelado. Porém nada aconteceu, tudo continuou normalmente. No seu pragmatismo absurdo, relutava em perdoar João por não ter avisado. Ele foi desleal em omitir o que sabia, retrucava. João, cansado em se justificar, estava quase pedindo perdão, mas como não era homem de pedir nada, não o fazia, com isso a dor da frustração queimava o peito. E ficaram os dois meios que distanciado um do outro. Até que um dia, Pedro, irmão de João, jogou em seu colo uma sacola com limão, um pacote de açúcar e uma garrafa de cachaça, dizendo:

            --- Aí está a tua prova. Vamos ver se é capaz de fazer uma gostosa caipirinha. Se aprovarmos você pode ser considerado da família.

            Beto não podia acreditar, então a maldita prova era fazer uma merda de caipirinha! Começou a rir se maldizendo. Pedro e João olhavam para ele espantados. Foi então que compreendeu. Não vou fazer porra nenhuma, não era amado e muito menos amava, por isso, levantou-se sem se preocupar com limão, açúcar e cachaça que caíram no assoalho limpo da sala e saiu batendo a porta. João entendeu e nunca mais se viram.

            É isso... ou, não é?

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