A
prova.
Beto se conhecia muito bem, tinha a
nítida noção do que era e do que não era possível fazer. As vezes se
surpreendia com certas coisas, mas no fundo surgia uma revolta involuntária por
deixar se levar por algo que achava grandioso e ao final percebia que não era
nada daquilo que imaginara. Pressentia o sentimento que lhe dava uma proteção
contra algo que não atinava o que poderia ser. Ao fazer alguma coisa que fosse
no passado não o faria, se enchia de orgulho, se congratulava pela ousadia.
Quando conheceu João, se alimentou pelo sentimento forte a ponto de achar que
enfrentaria qualquer perigo que fosse. No entanto ao ser confrontado ao desafio
que lhe fora proposto, a fraqueza escondida se aflorou causando-lhe medo.
Sentiu-se pequeno, frágil, tímido, envergonhado a ponto de imaginar que algo
acontecesse e o desafio fosse cancelado. Porém nada aconteceu, tudo continuou
normalmente. No seu pragmatismo absurdo, relutava em perdoar João por não ter
avisado. Ele foi desleal em omitir o que sabia, retrucava. João, cansado em se
justificar, estava quase pedindo perdão, mas como não era homem de pedir nada,
não o fazia, com isso a dor da frustração queimava o peito. E ficaram os dois
meios que distanciado um do outro. Até que um dia, Pedro, irmão de João, jogou
em seu colo uma sacola com limão, um pacote de açúcar e uma garrafa de cachaça,
dizendo:
---
Aí está a tua prova. Vamos ver se é capaz de fazer uma gostosa caipirinha. Se
aprovarmos você pode ser considerado da família.
Beto
não podia acreditar, então a maldita prova era fazer uma merda de caipirinha!
Começou a rir se maldizendo. Pedro e João olhavam para ele espantados. Foi
então que compreendeu. Não vou fazer porra nenhuma, não era amado e muito menos
amava, por isso, levantou-se sem se preocupar com limão, açúcar e cachaça que
caíram no assoalho limpo da sala e saiu batendo a porta. João entendeu e nunca
mais se viram.
É
isso... ou, não é?
Nenhum comentário:
Postar um comentário