Todos escutaram o grito. Repercutiu muito além do que
se possa imaginar. Uma coisa que garantiram, é que não se ouviu uma palavra
sequer. Nem uma letra. Não foi um grito qualquer, que se ouve nas ruas ou mesmo
nas conduções, e muito menos, no metrô. Não nada disso. Ecoou por todos os
lados da existência humana. Abalou a estrutura óssea, ao mesmo tempo, trincou
os nervos num suspense de angústia e terror. A vida por milímetros de segundos
ficou estagnada na fluidez do tempo. Olhos a procura de onde viera o grito,
percorria cantos e recantos da vida aconchegada na futilidade de viver.
Uma coisa todos concordavam, e foi quase uma
unanimidade. No grito houve pequenos surtos de letras, o que para alguns,
definiram como palavras. Mas foram poucos. E também não sabiam direito que
letras foram ou que palavras as letras formaram. O que não podiam negar é terem
ouvido o grito, o que todos concordaram. A mulher, talvez privada de algo que a
deixava com a face oculta pela solidão, ariscou um palpite, o grito não fora de
terror, o que todos aprovaram. Vendo que podia dar palpite, o homem ao lado, eles
não eram casados, nem namorados, estavam ali por coincidência, ouviram e
pararam como muitos também pararam, acha que o grito foi de quem tinha ganhado
na sena, mega sena ou sei lá. O menino entre os dois, disse que poderia ser uma
criança que por algo que fizera e que os pais o repreendera. A menina parecida
com ele concordava e disse: acho que a criança estava satisfeita com a vida e
essa foi a maneira de se manifestar.
Enfim, por mais que se perguntasse nada sabiam. Quem é que sabe da vida dos outros se não sabemos nem a nossa, falou o senhor que lentamente se afastou. Assim, um a um foram se afastando do local. Quando não havia mais ninguém, o silêncio voltou a reinar e novamente a engrenagem voltou ao normal, tanto é que segundos depois, ninguém mais se lembrava do grito.
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