O almoço.
Fogo gritou. Ninguém ouviu. Quem ouviria? Quem?
Ninguém. A Juliana na cozinha preparava a comida que só ela sabia fazer. O João
espremia o limão para a gostosa caipirinha que só ele sabia fazer. A Dirce
lavava a alface e descascava a cebola e cortava em quatro para a salada que só
ela sabia fazer. Ricardo acendia o forno para aquele churrasco que só ele sabia
fazer. As crianças, dois meninos e duas meninas, brincavam da maneira que só
elas sabiam fazer, barulho e correria.
João Augusto berrou: Fogo. Saiu correndo seguido pelo
Pedro, Marina e Vitória. Juliana ao se virar, quase foi derrubada pelos
meninos. Olhando para Dirce, deixou escapar: Essas crianças são fogo! O que fez
com que Dirce concordasse com a cabeça, pois mastigava uma folha de alface.
Toda vez que olho para você ta com uma folha na boca. Desse jeito quando formos
comer não haverá mais salada, disse João. A mulher fez um gesto com a mão
dizendo: Não amole. Ricardo ao ouvir, disse: È vê se não come tudo, meu prato
predileto é salada, viu Dirce?
João ofereceu a caipirinha para Ricardo, que estalou a
língua: Cara! Boa só você mesmo para uma caipirinha. Obrigado, agradeceu e
tirando duas latinhas de cerveja, abriu uma para ele e a outra para o João.
Obrigado, disse ao amigo. Nisso, Juliana
com a travessa de arroz, anunciou: Vamos comer pessoal. Ricardo foi obrigado a
retrucar: Ainda não assei a carne, tem lingüiça. Dirce, sem pestanejar, pediu:
Mande umas para mim, com arroz e salada não tem igual. Ricardo tomou um gole de
cerveja e sentando à mesa, passou a travessa com lingüiça para Dirce. Cuidado,
cara! Já está embriagado é, falou João ao ver Ricardo tropeçar.
O pior não é tropeçar e cair, o pior é depois catar os
estragos, a lingüiça, os cacos de travessa, contar assim como se conta letras
para escrever um texto que exige a quantidade certa de palavras, falou a voz
mansa de Juliana. Eu não entro nessa, não. A inspiração não tem quantidade de
palavras certas, pestanejou João. Concordo, escrevo até onde acho que devo
escrever. E às vezes preencho duas, três, quatro ou cinco páginas, disse
Ricardo. É, mas não estamos num concurso de literatura, estamos aqui reunidos
para saborearmos uma boa comida e uma boa conversa entre amigos, Juliana falou
ao espetar uma lingüiça.
Nisso as crianças, correndo passaram por eles, berrando: Fogooo! Crianças vêem comer, rápido, chamou João. O que não adiantou nada. Não sei mais o que faço com elas, desabafou Dirce. De repente ouviram a campainha tocar. Um olhou para o outro e os quatro ao mesmo tempo disseram: Estão esperando alguém para o almoço? E ao mesmo tempo responderam: Não. Juliana foi encarregada de abrir a porta, e Joaquim que não tinha nada com a história e muito menos com o almoço, entrou e sentou à mesa sem ao menos ser convidado, e disse: falta uma palavra.
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