O cadeado
Da próxima
vez tome cuidado, ele disse, pondo o cadeado sobre a mala. (O cadeado) Pequenas
Criaturas, Rubem Fonseca
Alencar olhou o cadeado. Marca conhecida, não era
difícil abrir. No entanto, o clipe de papel não obedecia ao comando. Com gestos
leves e pequenos, girava de um lado para o outro o pedaço de metal sem ter
progresso nenhum. Passou a mão pela testa. O suor começava a escorrer. Olhou
para a moça sentada na poltrona a espera. Apesar de ter falado com ele numa voz
desesperada, aflita, naquele momento via-se em seu semblante uma calma de que
nada estava acontecendo.
Agachado, observava pelo canto do olho. Não parecia
ser uma pessoa qualquer. Via-se que tinha classe. Sentada com o corpo ereto,
aparência de ricaça. Às vezes, andava de um lado para o outro, demonstrando
impaciência. Não dizia nada. Não o apressava. Disse a ele que precisava abrir a
mala porque perdera a chave.
Quando saia do elevador, trombou com ela que entrava.
Quase caíram os dois. Nas desculpas que um dava para o outro, ao pegarem os
objetos do chão, Alencar ficou sabendo que ela necessitava de um chaveiro.
Chaveiro? Sim chaveiro, mas como é domingo só poderei chamar um na segunda,
amanhã, disse numa voz angustiada, se não abrir a mala hoje estou ferrada. Foi
então que se prontificou a ajudá-la.
E estava ali a mais de meia hora. Via-se frustrado
pensando numa desculpa quando ouviu o clique. Sorriu. Consegui, pensou
triunfante. No mesmo instante ouviu outro clique perto do ouvido. Olhou
espantado para o cano do revolver encostado na cabeça.
Se afaste da mala, disse a moça numa voz forte e
decidida. Obedeceu. Deu dois passos para traz. Apontando o revolver para ele,
agachou-se devagar e abriu a mala. O que viu o deixou de boca aberta estava
cheia de dinheiro. Vários pacotes de nota de cem reais. Rapidamente fechou a
mala e levantou-se segurando pela alça. Numa rapidez impressionante, sem que
desse tempo de uma reação, ela desferiu um chute no meio das pernas dele
obrigando-o rolar pelo chão.
Não lembra quanto tempo ficou rolando de um lado para outro. Quando se sentiu melhor, levantou-se, saiu do quarto, pegou o elevador, e ao chegar à calçada, em frente ao hotel, reparou que chovia. Que merda, esqueci o guarda-chuva, disse erguendo a gola do paletó.
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