quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Contos surrealistas 09

                                 O vale perdido

 

Ele se encontrava perdido. Disse várias vezes olhando os lábios no reflexo do espelho: perdido. Repetiu, agora com a voz grossa: perdido. Não importava entonação, elevar ou diminuir, com a boca torta, entre os dentes, fazendo careta ou com os olhos arregalados, realmente não faria diferença nenhuma, o perdido seria sempre perdido, não mudaria nunca.

Perdido num amalgama de sentimento sem cumprir o programado. Sabia meio solto num ambiente que não estava acostumado. Indolente nos gestos impulsionou os braços a serem ágeis. No entanto os dedos duros não obedeciam. Agiam na lentidão da atmosfera do ambiente, seco e lasso num desconforto doloso.

Sentia na mão a pele dos objetos duros, metálicos, frios queimando-o. A lâmina cortava asperamente os pêlos criando sulcos na espuma que cobria o rosto. Precisava tomar uma decisão, sair desse vale perdido de emoções. O que tinha a fazer era apenas decidir quando e o que tinha para ser feito. O primeiro passo já fora dado.

Tanto é que estava ali, na frente do espelho grande do banheiro aparando a barba. Dali a pouco ele chegaria e teria que lhe dar uma decisão. Prolongada por dois meses sua estada, tinha que escolher. Não podia ficar mais. E com ansiedade esperava ao correr da lâmina no rosto.

Propuseram um combinado. Ele viera para permanecer um mês. Ver se acostumava, depois é que decidiria ou não. No entanto de um mês passou para dois e, foi quando ele lembrou o combinado. E estipulou um prazo que marcado na folhinha tinha que ser hoje.

Olhou o relógio. Logo ele estaria chegando. Decidido não se controlava, com passadas largas percorria a sala de um lado ao outro. Nisso ouviu barulho do elevador. Parou de andar. O coração aos pulos, a espreita, ouviu o barulho da chave sendo introduzida na fechadura e, lentamente a porta foi aberta.

Ele entrou sem dizer nada. Esperou minutos infindos que lhe pareceu não acabar. Chegou-se perto dele, também sem dizer nada, o abraçou fortemente em seguida beijou-o nas duas faces.

Compreendeu assim como ele e nada disseram, sabiam o que um representava ao outro.

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