O vale perdido
Ele se encontrava perdido. Disse várias vezes olhando os
lábios no reflexo do espelho: perdido. Repetiu, agora com a voz grossa:
perdido. Não importava entonação, elevar ou diminuir, com a boca torta, entre
os dentes, fazendo careta ou com os olhos arregalados, realmente não faria
diferença nenhuma, o perdido seria sempre perdido, não mudaria nunca.
Perdido num amalgama de sentimento sem cumprir o
programado. Sabia meio solto num ambiente que não estava acostumado. Indolente
nos gestos impulsionou os braços a serem ágeis. No entanto os dedos duros não
obedeciam. Agiam na lentidão da atmosfera do ambiente, seco e lasso num
desconforto doloso.
Sentia na mão a pele dos objetos duros, metálicos,
frios queimando-o. A lâmina cortava asperamente os pêlos criando sulcos na
espuma que cobria o rosto. Precisava tomar uma decisão, sair desse vale perdido
de emoções. O que tinha a fazer era apenas decidir quando e o que tinha para
ser feito. O primeiro passo já fora dado.
Tanto é que estava ali, na frente do espelho grande do
banheiro aparando a barba. Dali a pouco ele chegaria e teria que lhe dar uma
decisão. Prolongada por dois meses sua estada, tinha que escolher. Não podia
ficar mais. E com ansiedade esperava ao correr da lâmina no rosto.
Propuseram um combinado. Ele viera para permanecer um
mês. Ver se acostumava, depois é que decidiria ou não. No entanto de um mês
passou para dois e, foi quando ele lembrou o combinado. E estipulou um prazo
que marcado na folhinha tinha que ser hoje.
Olhou o relógio. Logo ele estaria chegando. Decidido
não se controlava, com passadas largas percorria a sala de um lado ao outro.
Nisso ouviu barulho do elevador. Parou de andar. O coração aos pulos, a
espreita, ouviu o barulho da chave sendo introduzida na fechadura e, lentamente
a porta foi aberta.
Ele entrou sem dizer nada. Esperou minutos infindos
que lhe pareceu não acabar. Chegou-se perto dele, também sem dizer nada, o
abraçou fortemente em seguida beijou-o nas duas faces.
Compreendeu assim como ele e nada disseram, sabiam o que um representava ao outro.
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