Deja vu.
Em menos de dez minutos ele foi concebido. Sua mãe
suspirou dez vezes, e seu pai gozou dez vezes a cada suspiro da mulher. Dez
meses depois nasceu meio que forçado, o médico disse que ele não queria sair antes
que completasse dez meses. Precisou de dez palmadas para chorar dez minutos em
que a enfermeira o preparou para ser apresentado pela primeira vez à mãe. Ao vê-lo,
chorou longamente dez minutos sem conseguir definir se era menino ou menina, o
que dez minutos depois, foi confirmado: era menino, para a felicidade do pai.
Antes de completar dês dias de vida, já andava
alucinadamente para o desespero da mãe. O pai não agüentou o tranco, deixou-o
entregue aos cuidados da mulher. E dez dias depois as primeiras palavras
jorraram da sua boca. Das dez palavras proferidas, uma só foi dirigida
carinhosamente à mãe, as outras nove foram palavrões de arrepiar cabelo de
freira.
Ao completar os dez anos de idade, já tinha namorado
todas as meninas. Prometera casamento para algumas, outras apenas passatempo. Entre
dez amou uma só e, mesmo assim, não tanto como devia.
Antes dos vinte anos, viúvo dez vezes, foi necessário
trabalhar dez vezes mais para cuidar dos dez filhos de cada esposa. Dos dez
filhos, apenas o caçula permaneceu ao seu lado, os outros cairão no mundo. Na
casa dos trintas soube que era avô novecentas vezes. Só não chegou aos mil
porque o caçula fez voto de castidade. Tudo indicava que seria padre para
desgosto dos irmãos e do pai, mas descobriram-no num show de travesti.
Aos trintas anos olhou dez vezes o espelho e por dez vezes constatou que já tinha feito de tudo na vida e, como lhe parecesse um profético deja vu, no dia dez de outubro se suicidou jogando-se do décimo andar do Edifício Viva Vida Dez Vezes Vida.
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