sábado, 23 de outubro de 2021

Contos surrealistas 13

                                 Pirata.

 

Todo cuidado é pouco, sua mãe sempre lhe dizia. Mas pirata pelo que ele sabe, não tem mãe, pai, não tem ninguém, ora bolas! Então tinha que fazer um jeito ou uma maneira de apagar essas lembranças. E para ser pirata se todo cuidado é pouco, ele vinha tomando os mais diversos cuidados. O que não podia é deixar-se pegar pela soldadesca gananciosa em por as mãos em cima dele. Conseguira até o momento transitar livre pelo mar lutando, isso sim, com a tormenta levando-o para lugares distantes e estranhos ao que imaginara.

 Era parte do jogo da pilhagem desenfreada que ele e seus comparsas vinham praticando. Ainda bem que tinha um navio rápido, velas firmes amaradas em cordames fortes. Sentia orgulho de ser pirata, orgulho em ter essa malta de foragidos que nunca pestanejavam em pilhar, em matar, e, isso tinha a máxima certeza, eram fiéis a ele.

No entanto corria um boato. Não só entre os seus asseclas como em todo porto em que eram obrigados a parar. Quando um boato passava de porto em porto, de boca em boca de cada pirata, podia contar duas coisas: ou era verdadeiro ou a morte estava sendo anunciada. Não gostava, mas aquele boato estava com cheiro de ouro. Por isso, mudou o rumo e apontou a proa para o norte como indicava a bússola. Precisava arrumar outro graveto que aquele já estava gasto.

O famoso pirata Caolho de Morte sumira. Ninguém sabia o que lhe acontecera. Mas diziam que toda a pilhagem que ele fizera deixara enterrada na Ilha do Cabo Torto. Não era do seu feitio, ele, Pirata de Um Olho Só seguir boatos, não era. Ele tinha mais prazer eram na abordagem em alto mar, pilhar navios desprevenidos, principalmente os que transportavam valiosas cargas. Porém, para evitar um motim que, sabia seria derrotado e jogado ao mar, estava partindo para a Ilha do Cabo Torto. Consultou novamente a bússola de graveto torto.

Nisso, quando o navio subia levado por uma onda enorme, ouviu um grito ao longe. Droga! Era a mãe chamando-o para tomar banho e jantar. Como um bom menino obediente, deixou a bússola de graveto torto guardada no lugar de sempre, fechou a caixa de papelão perto a parede.

- Já estou indo mãe, gritou subindo as escadas do porão da casa.

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