domingo, 24 de outubro de 2021

Contos surrealistas 12

Último dia.

 

Segunda feira para muitos é o pior dos dias. Começo de semana, cinco dias de trabalho, o que para ele, Dinho, pouca diferença faz. Aposentado há pouco tempo, estando ainda num período, vamos dizer de adaptação a segunda feira como a terça ou a quarta ou mesmo a quinta não lhe diz nada. Deixou de se preocupar com os dias da semana.

Mas hoje, segunda feira, o dia frio, cinzento, um vento cortante, indica que o astro rei não aparecera. E tendo mais uma agravante, não para os outros, para ele. É o último dia de vacinação e desse dia não escapa, isto é, não deixarão que escape. Depois que a gripe suína matou cinco pessoas, é que o governo resolveu lançar a campanha em massa de vacinação. E hoje é o último dia. Na segunda feira. Que coisa! As campanhas sempre terminam no sábado ou domingo, mas essa termina na segunda. Por quê? Algum motivo deve ter. (Lembrei do livro O homem que odiava a segunda-feira, do Ignácio Loyola Brandão)

Nos seus setenta e dois anos ainda sofria de síndrome de agulha. Uma vez, ao doar sangue, desmaiou, assustando todos, demorou a voltar a si. É claro, foi motivo de chacota entre os amigos e parentes. Portanto vinha adiando tomar a vacina suína, não só por causa do seu temor, também por ter lido na Internet que foi a causa da morte de cinco pessoas. Bobagem, o senhor acredita em tudo que lê na Internet, disse a filha, levando-o ao posto de saúde.

Ressabiado entrou na sala que para o seu espanto não tinha ninguém, quer dizer, estavam apenas duas pessoas, um enfermeiro e uma enfermeira. Com a voz de falsete parecendo taquara rachada, o enfermeiro ordenou que ele abaixasse a calça. Como? Vou tomar na bunda? Perguntou com os olhos arregalados. Sim, agora é na bunda, disse a enfermeira com uma cara de cão raivoso. Nunca vi tomar vacina na bunda. Mas essa é para dar na bunda, disse o enfermeiro com a seringa apontado para o rosto dele. Dinho obedeceu, virou as costas e abaixou a calça e se preparou. O músculo do rosto tensionado sentiu a ponta da agulha furando a carne e o líquido se misturando com o sangue num rio só. Não gritou apenas o rosto se configurou num esgar dolorido. O músculo se contraiu numa câimbra quase insuportável.

Foi então que se viu erguido acima das cabeças das pessoas. A filha o olhava sem denotar espanto. Parecia que esperava o acontecimento. Será que morri, perguntou desconsolado. Morri e não me avisaram? Nisso, como bando de abelhas, várias seringas com suas agulhas longas e finíssimas vinha em sua direção. Estou sofrendo um ataque de agulhas e ninguém faz nada, parecem que sorriem, estão se divertindo com sofrimento alheio, disse sem ouvir a própria voz. Não adiantava o esforço, cada vez mais o enxame de seringas zumbido suas agulhas se aproximavam dele.

 Notou lá no fundo do peito que ainda havia esperança, com isso se acalmou ao ouvir, mesmo que ao longe que o chamavam. Prestou atenção.

- Pai vai.

- Dinho não escuta sua filha?

- Pai vamos tomar a vacina.

- Que? Já tomei, disse ele se levantando do sofá.

- Que tomou que nada, vamos...

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