Último dia.
Segunda feira para muitos é o pior dos dias. Começo de
semana, cinco dias de trabalho, o que para ele, Dinho, pouca diferença faz.
Aposentado há pouco tempo, estando ainda num período, vamos dizer de adaptação
a segunda feira como a terça ou a quarta ou mesmo a quinta não lhe diz nada.
Deixou de se preocupar com os dias da semana.
Mas hoje, segunda feira, o dia frio, cinzento, um
vento cortante, indica que o astro rei não aparecera. E tendo mais uma
agravante, não para os outros, para ele. É o último dia de vacinação e desse
dia não escapa, isto é, não deixarão que escape. Depois que a gripe suína matou
cinco pessoas, é que o governo resolveu lançar a campanha em massa de
vacinação. E hoje é o último dia. Na segunda feira. Que coisa! As campanhas sempre
terminam no sábado ou domingo, mas essa termina na segunda. Por quê? Algum
motivo deve ter. (Lembrei do livro O homem que odiava a segunda-feira, do
Ignácio Loyola Brandão)
Nos seus setenta e dois anos ainda sofria de síndrome
de agulha. Uma vez, ao doar sangue, desmaiou, assustando todos, demorou a voltar
a si. É claro, foi motivo de chacota entre os amigos e parentes. Portanto vinha
adiando tomar a vacina suína, não só por causa do seu temor, também por ter
lido na Internet que foi a causa da morte de cinco pessoas. Bobagem, o senhor
acredita em tudo que lê na Internet, disse a filha, levando-o ao posto de
saúde.
Ressabiado entrou na sala que para o seu espanto não
tinha ninguém, quer dizer, estavam apenas duas pessoas, um enfermeiro e uma
enfermeira. Com a voz de falsete parecendo taquara rachada, o enfermeiro
ordenou que ele abaixasse a calça. Como? Vou tomar na bunda? Perguntou com os
olhos arregalados. Sim, agora é na bunda, disse a enfermeira com uma cara de
cão raivoso. Nunca vi tomar vacina na bunda. Mas essa é para dar na bunda,
disse o enfermeiro com a seringa apontado para o rosto dele. Dinho obedeceu,
virou as costas e abaixou a calça e se preparou. O músculo do rosto tensionado
sentiu a ponta da agulha furando a carne e o líquido se misturando com o sangue
num rio só. Não gritou apenas o rosto se configurou num esgar dolorido. O
músculo se contraiu numa câimbra quase insuportável.
Foi então que se viu erguido acima das cabeças das
pessoas. A filha o olhava sem denotar espanto. Parecia que esperava o
acontecimento. Será que morri, perguntou desconsolado. Morri e não me avisaram?
Nisso, como bando de abelhas, várias seringas com suas agulhas longas e
finíssimas vinha em sua direção. Estou sofrendo um ataque de agulhas e ninguém
faz nada, parecem que sorriem, estão se divertindo com sofrimento alheio, disse
sem ouvir a própria voz. Não adiantava o esforço, cada vez mais o enxame de
seringas zumbido suas agulhas se aproximavam dele.
Notou lá no
fundo do peito que ainda havia esperança, com isso se acalmou ao ouvir, mesmo
que ao longe que o chamavam. Prestou atenção.
- Pai vai.
- Dinho não escuta sua filha?
- Pai vamos tomar a vacina.
- Que? Já tomei, disse ele se levantando do sofá.
- Que tomou que nada, vamos...
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