O dedo.
Tony se deliciava com a água banhando os pés. Descalço gozava o sabor da onda que arrebentava nas pernas. “É uma delicia a areia entre os dedos arrastada pelas ondas...”, pensava numa frase de efeito para um conto que começava a esboçar. Ao longe, onde o céu beijava o mar, navios dirigiam seus destinos para o desconhecido. Àquela hora poucos se arriscavam ao sabor do vento que a corrente marítima empurrava para o continente.
Tony sentado à sombra saboreava a cerveja gelada
enquanto seus olhos percorriam as letras do livro indicado pela amiga e poeta
Belvedere, Os Primeiros Contos de Aprendiz, de Pastorelli. Ele tinha sempre um
pé atrás com escritores novos, principalmente desconhecidos e, com esse não
deixava de ter razão. Além de pouca profundidade, apesar de bem escrito, o
livro não trazia atrativo nenhum, o que prendia a atenção era a criatividade e
a indicação da amiga, senão já teria posto de lado o enfadonho volume. “Um bom
livro não se mantém com frases de efeito se não tiver um forte conteúdo”,
escreveu no caderno de anotações.
Tony já estava andando há um bom tempo. Pensava em
voltar quando algo lhe chamou a atenção. Um dedo enterrado na areia. Aliás,
para dizer a verdade, tinha pisado em cima do dedo. Olhou bem para o fragmento
humano. Como aquilo estava enterrado? Será que o mar jogou na praia? Será que
foi cortado de propósito? Ou o tubarão comeu o resto e cuspiu o dedo por
desaprovar o gosto? Estava com a unha pintada de azul, o que levou Tony deduzir
que era de mulher. O que duvidava, pois hoje em dia até os homens pintam as
unhas. De azul? Difícil. Então só poderia ser de travesti.
Tony não sabia o que fazer. Não tinha mais ninguém na
praia. Estava sozinho. Pensou em jogar ao mar. Desistiu, o mar devolveria. Até
aí ele estaria longe e não passaria por ali pelo menos umas duas semanas. E se
levasse para a polícia? E onde tem posto policial, perguntou olhando para os
lados. Nunca viu um policial por aqui e muito menos no calçadão. E se levasse
para casa e amanhã procurasse alguma autoridade? Credo! Passar a noite toda com
o dedo de um desconhecido em casa? Depois teria que prestar depoimento, contar
e recontar como achou o dedo e, provavelmente poderia ser até indiciado como
culpado. Talvez até estivesse fazendo uma edição tupiniquim de Veludo Azul. Só
que no filme o que foi encontrado era uma orelha.
Tony
com uma lasca de concha começou a cavoucar em volta do dedo. Devagar foi
retirando a areia até uma profundidade razoável e, assim pode verificar que era
realmente só um dedo. Quem sabe se acompanhando o dedo não estivesse o resto, a
mão, o braço ou até o corpo todo. Sem que ele se apercebesse, estava rodeado
por vários cachorros. Foram chegando aos poucos. Quem sabe atraídos pelo cheiro
da carne meio pútrida. De repente sem que desse tempo, avançaram em cima do
dedo. Em um instante destroçaram o apêndice humano. Até o osso sumiu entre os
dentes caninos. Só restou a unha pintada de azul como se fosse pedaço de
concha.
Tony, diante da fúria canina, se afastou observando a matança destruidora. Por instantes, ficou observando no silêncio das ondas, a pequena unha desprezada. Por fim, pegou a unha e a colocou entre as folhas do livro como quem guarda uma pétala de rosa. Sorriu, deu de ombros e continuou caminhando como se nada tivesse acontecido.
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