Sem culpa.
- Faz tempo, disse ela
batendo com violência gritante a porta do carro. Ajeitou-se numa tagarelice
desembestada que não deu oportunidade para ele formular uma resposta adequada.
Aquele faz tempo sou absurdo em seus ouvidos a ponto de tirar a atenção que, ao
mudar a marcha do veículo, entrou errado e quase que derruba o telhado do
vizinho. Não adiantava pedir para que calasse a boca, quando começava a
tagarelice se transformava numa lamúria incessante. Precisava fazer alguma
coisa. Virou o carro para a direita, cruzou a nuvem à frente, e seguiu até a
planície que antes era verde e que agora, devido aos exercícios militar, era
apenas uma planície deserta, árida mais dura que a rocha do grande cânion.
Olhou pela última vez para a boca que não parava de falar, abriu a porta do
carro e, deu um empurrão. A coitada voou, quer dizer, despencou. Ao bater no
chão tórrido do verão, arrebentou-se toda em placas, fios, rodelas, parafusos e
faíscas azuis e vermelhas. Ainda por instantes ouviu o falatório até que
emudeceu. Sem culpa sem peso na consciência, dizendo para si mesmo, amanhã
comprou outra e tudo bem, acelerou o carro, subiu mais um pouco, virou para a
direita e seguiu para a Rua Fábrica de Andróides.
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