quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Contos surrealistas 23

                                     Sem culpa.

                        - Faz tempo, disse ela batendo com violência gritante a porta do carro. Ajeitou-se numa tagarelice desembestada que não deu oportunidade para ele formular uma resposta adequada. Aquele faz tempo sou absurdo em seus ouvidos a ponto de tirar a atenção que, ao mudar a marcha do veículo, entrou errado e quase que derruba o telhado do vizinho. Não adiantava pedir para que calasse a boca, quando começava a tagarelice se transformava numa lamúria incessante. Precisava fazer alguma coisa. Virou o carro para a direita, cruzou a nuvem à frente, e seguiu até a planície que antes era verde e que agora, devido aos exercícios militar, era apenas uma planície deserta, árida mais dura que a rocha do grande cânion. Olhou pela última vez para a boca que não parava de falar, abriu a porta do carro e, deu um empurrão. A coitada voou, quer dizer, despencou. Ao bater no chão tórrido do verão, arrebentou-se toda em placas, fios, rodelas, parafusos e faíscas azuis e vermelhas. Ainda por instantes ouviu o falatório até que emudeceu. Sem culpa sem peso na consciência, dizendo para si mesmo, amanhã comprou outra e tudo bem, acelerou o carro, subiu mais um pouco, virou para a direita e seguiu para a Rua Fábrica de Andróides.

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