quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A casa

                 Para o Felipe Guilherme

Estou sempre em casa. Não saio. Raramente e se saio é por uma urgência necessária. Não que eu seja um recluso fanático, é que estando sempre aqui, entre essas paredes frias, brancas com poder de uma mudez incrível me fascina. A imaginação corre solta na textura das paredes. Cada parede traz uma característica diferente uma da outra. Note que cada uma tem uma história. E percebo que cada vez mais essa história vai se incorporando a outras a ponto de ouvir vozes, gemidos e gritos. Não, não gritos, vozes e gemidos de terror, não nada disso. Ao contrário, são de prazeres, sons de satisfação, de algo positivo, muito bom, digo até que essa positividade vai além da própria parede. Há vibrações energéticas inexplicáveis nos cômodos.

Quando pela primeira vez entrei nessa casa, percebi algo forte, positivo, que abalou o alicerce da minha carne fazendo-a vibrar intensamente. Não me pus em guarda, nada disso. Não poderia, pois já sabia o que estava destinado. Não precisei nem colocar o pé porta dentro, já tinha noção desses acontecimentos. Parece que ela se ofereceu a mim, entende? Foi algo como um prêmio que estava ganhando. Por isso não houve na minha estrutura óssea e, muitos menos, na estrutura nervosa indecisão. E como tudo mundo sabe da minha incapacidade perceptiva, da dificuldade em raciocinar na rapidez dos sentidos, não poderia estar sentindo essas sensações. Mas como há o mistério para ser desvendando, ali se encontrava mais um que era urgentemente necessário o seu desvendamento.

Portanto assim que tomei conhecimento disso tudo, que o fluir nirvânico trespassou meus sentidos, destaquei-me a receber toda a capacidade fluídica da casa. Foi um troço inexplicável, sensacional, posso até dizer, sem peja nenhuma, que foi deslumbrante. Captei o pulsar de suas fibras depositando cada pulsação na pulsação do cerne do meu coração. Se o medo existia, não deu manifestação nenhuma, não atrapalharia em nada o histórico que, a partir daquele momento, estaria ponto no papel abstrato todo o seu desenrolar fascinante. Todo o seu potencial fantástico.

A primeira coisa que tinha a fazer, e se não o fizesse não estaria agora revelando toda a história, era-me por a nu. Desenraizar o preconceito, esse verme retrógado da sociedade, para que na frieza da pele houvesse a penetração de todo o conhecimento da casa. Quando introduzi a pequena chave na fenda da fechadura, foi um principio orgástico que depois se estendeu por longo tempo. Ao ouvir o gemido do clique da fechadura, a casa se abriu toda aos meus olhos. Lentamente empurrei a porta e... Contive a voz para que não saísse num prolongado e delicioso grito de prazer.

Acompanhando o lendo movimento da porta, meu olhar foi divisando a sala totalmente. Pequena sala, diga-se de passagem, mas aconchegante, quente, gostosa onde os moveis completavam todo o conforto de se estar prazerosamente dentro dela. E nesse exato momento a alma da casa me dominou para sempre. Não foi preciso percorrer os outros cômodos, dali do meio da sala visualizei a cozinha, a outra sala, o quarto e o quintal, foi um elevo que prometi a mim mesmo que jamais sairia daqui e, por todos esses anos, talvez uns trinta ou quarentas que pertenço a casa assim como a casa me pertence. Pode-se dizer que estamos um enraizado no outro infinitamente. Sei que ao morrer, ela morrerá também.

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