Rodinei enxugou o rosto. O dia estava quente. Gostava do aroma de suor escorrendo pelo rosto. Intensificou mais as pedaladas forçando os músculos a se esticarem o máximo que podiam. Todos os dias, Rod como era chamado pelos amigos, pegava a bike e saia a pedalar pela cidade. O lado sul, com suas árvores ladeando as ruas, era o preferido. Não entendia porque sentia atração por essa parte da cidade. No seu aspecto estrutural arquitetônico não havia muita diferença entre a zona sul com a zona leste e nem a zona oeste com a zona norte. O único aspecto contrastante eram pequenas casas e prédios ainda resistentes ao tempo. Mostravam ainda a força do passado ao lado de construções modernas que pareciam desmoronar a um pequeno sopro da natureza.
Ele, e como
todos os jovens de sua idade, estavam designados para ingressar no Programa de
Fecundação Anual, coisa que não entendia como seus amigos aceitavam resignados apenas
para preservarem uma tradição milenar. Dizia que só quebrando regras é que uma
pessoa conseguia progredir. Ao passar todos os dias em frente ao imponente
prédio do Programa de Fecundação, jurava solenemente que não entraria ali de
maneira alguma. Sabia que sua vida, assim como de todos, desde os primeiros
passos, era condicionado para tal finalidade. Tanto ele como Juliana, lutariam
contra o ingresso ao programa, pelo menos acreditava que Juliana cumpriria o
trato.
Oito horas, disse mentalmente depois de verificar as
horas no relógio de pulso. Ao baixar a mão em que seus dedos rijos deram volta
ao guidão direito, foi que reparou num detalhe na cena em que seus olhos, todos
os dias, admiravam.
Estava no cruzamento denominado de Cruzamento da
Divisão. A sua frente seguia a Rua do Cruzamento e a direita e a esquerda, a
Rua da Divisão. Parava sempre ali, pois era praticamente a metade do itinerário
que fazia. Por cinco minutos admirava a paisagem que se descortinava a direita.
A partir da Rua do Cruzamento, a Rua da Divisão tornava-se um declive tendo
casas comuns dos dois lados da rua. Mas o que o intrigava era que não havia
movimento algum, ninguém saia ou entrava das casas, os carros, as pessoas não
viravam, passavam direto, enquanto do lado oposto, isto é, o lado esquerdo o
movimento era intenso, podia-se dizer normal até. Tomou uma decisão, virou à
direita. Não deu nem duas pedaladas quando bateu em algo que o derrubou. Como?
Não via nada a sua frente, apenas a rua que se prolongava até perder de vista. Desconcertado,
confuso, levantou-se e passou a mão pelo meio da rua, descobriu algum tipo de
vidro pintado como se fosse o prolongamento da rua. Andou de um lado para o
outro e, assombrado viu-se andando por cima das casas. Aquilo era uma pintura?
Era uma enganação? Nisso viu uma falha como se alguém tivesse raspado deixando
amostra um buraco. Curioso, encostou o olho direito no buraco. O que viu deixou
intrigado! Viu gente do outro lado, era o que parecia a ele. Estava de um lado
e aquelas pessoas estavam de outro lado. Olhou de novo, não se pareciam com humanos,
vestiam um grosso capote ou pelo menos era o que parecia. De repente, um deles
virou a cabeça. Seus olhos se cruzaram. Rod levou um susto contendo o grito. O que
viu não era gente, pessoa, não era humano. O que era então? Nisso, ouviu-se uma
sirene acompanhado de uma voz alertando:
- Intruso no Cruzamento da Divisão. Intruso no
Cruzamento da Divisão. Intruso no Cruzamento da Divisão.
Rodinei montou na bike e saiu dali pedalando
rapidamente.
Rodinei não queria acreditar. Como Cris era tão
insensata assim? Como podia mudar de ideia rapidamente. Não adiantou protestar,
discutir, mostrar os prós e os contras, nem detalhar os pormenores da situação.
Por fim desistiu. Convenceu-se, Cris não mudaria mesmo. Era aquilo e aquilo
mesmo seria. Tinha convicção que com a ajuda da namorada descobrisse os
segredos do Programa de Fecundação.
Cris não queria nem ouvir que a cidade estava dentro
de uma redoma de vidro. Como poderia ser isso? Tem cabimento uma coisa dessas?
Rod estava louco, imaginar tal barbaridade! E além do mais, queria a ajuda dela
para desbaratar o Programa de Fecundação. Ora essa! Ele quer que eu seja presa,
não vá para o Programa de Fecundação e acabe nas masmorras do edifício, isso é
o que ele quer. Ora bolas! Depois diz que me ama!
Rodinei tinha esperança de convencê-la e mostrar o que
descobrira no Cruzamento da Divisão. Depois daquele dia passou a prestar mais
atenção e constatou a sua teoria. A Rua do Cruzamento não era reta, era uma
descomunal circunferência, a qual não podia sair. Passou um por um dos
cruzamentos da Rua, com cuidado para não ser pego, descobriu a mesma
característica uma com a outra. Todas eram pintadas, tanto as casas como as
ruas e, outra coisa, ninguém transitava por ali, como se soubessem da rua falsa
ou, o que era pior, denotavam um ar de quem soubesse da falsidade. Tirou essa
conclusão depois de interpelar algumas pessoas sobre o que ele achava de
errado. E todas demonstraram nada conhecerem, algumas nem respondiam, traziam
os olhos fixos no vazio.
Cris por fim resolveu acompanhar o namorado a tal rua
falsa que ele dizia. Talvez concordando parasse com essa insistência de que a
cidade era uma redoma de vidro, isto é, estava dentro de uma redoma.
Psicologicamente preparada, pois vinha pensando que Rod estava louco, se assustou
quando tocou na parede da rua. Realmente aquilo era uma pintura, olhou para o
pequeno buraco e, amedrontada retrocedeu ao ver uma criatura que nada tinha de
semelhança com o ser humano. Sem esperar pelo namorado saiu correndo deixando-o
para traz. Foi um choque, disse mais tarde quando Rod a alcançou. Sua estrutura
mental estava abalada. Tremia tanto que não conseguia formular a pergunta: Por
quê? Tudo o que vinha acreditando até agora era falso? Era uma coisa que não
era? No que pensar? Por fim abraçou Rodinei dizendo baixinho em seu ouvido:
- Concordo com você.
Rodinei beijou-a com toda a força do seu amor.
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