quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Continuando o que dizer – 04 05 06

Cabe ao escritor à obrigação de levantar o lençol da Realidade e olhar mais a fundo. Ir além. Então, esse 'querer ver além' é que é interpretado como fantástico. – J. J. Veiga.

 

 

No princípio aparecia uma aqui outra ali, depois é que foram surgindo mais e, quando perceberam, o quintal estava tomado. As lesmas se amontoavam uma por cima das outras. Era preciso ficar alerta para que não entrassem em casa. A todo instante, alguém abria a porta para verificar se não estavam subindo pela madeira toda trabalhada. Apesar de sua lentidão elas se arrastavam com rapidez, quando se percebia, olham elas dentro de casa. Era um tal de varrer, catar e jogar fora. Não sabiam mais o que fazer. Dormir era impossível, tinha sempre alguém de guarda verificando as frestas da porta ou da janela. Parecia que a cada temporal elas aumentavam de quantidade.

Cecília vivia jogando sal, o que, no primeiro momento foi uma solução até viável, porém com o passar dos dias, tornou-se insuportável, principalmente o cheiro. Cecília tinha horror de lesma, não podia ver uma que corria pegar o sal e despejar na coitada. Foi necessário brigar com Cecília que não queria parar de matar as invasoras. Funcionava porque abria um caminho sem que precisasse pisar nos corpos gosmentos. Mas, com o passar dos dias, tal a quantidade de lesmas que ficou impraticável transitarem. O chão inundou-se de manchas pretas e escorregadio e, com isso, não se podia mais sair de casa. Já estavam cansados de lutar, Cecília já não jogava mais sal nas lesmas, ninguém mais tinha paciência de ficar de guarda, entregaram-se ao destino, se eram para morrer engolidos por elas, então que seja, disse Agenor, pai de Cecília.

    Um dia, Bel, a mãe, ao chegar à cozinha, assustou-se com várias lesmas subindo pelos móveis, fogão, pia e horrorizada numa última tentativa, já estava com a vassoura pronta para o ataque, quando percebeu algo diferente. Elas não avançavam mais, a impressão que tinha, é que as lesmas davam ré. Chamou a filha e o marido, que juntos observaram o retrocesso dos gosmentos bichos até sumirem. E ao abrir a porta, Agenor deparou, estavam todas mortas, enroladas, retorcidas, secas tendo algumas esfareladas, esturricadas sob o sol. E o cheiro? Forte, cheiro de carne podre, um bodum intragável, que entrava pelo nariz revirando o estômago.

 Agenor não teve dúvidas, naquele dia mesmo, pegou da mangueira que, ainda não tinha sido estreada, de uns vinte metros mais ou menos e começou a lavar o quintal. Com certa dificuldade, pois era imensa a quantidade de gosmentos mortos, iniciou do portão em direção ao fundo do quintal, onde havia uma parte só de terra. Depois de uma hora talvez, ouviu um estrondo no meio de uma voz que berrava através do alto falante.

- Você aí embaixo, pare de lavar o quintal.

Ao mesmo tempo, desceram vários homens de uniformes metálicos prendendo o pobre do assustado Agenor.

- O senhor está preso. Não sabe que é proibido lavar o quintal? Que estamos terrivelmente economizando água?

Agenor não sabia, e nem tinha como saber, preocupado com as malditas lesmas não sabia de nada.

- O senhor não lê, não vê o noticiário, não?

Não, não via, teve vontade de gritar que não tivera tempo de nada, devido à chuva que todas as tardes caiam na cidade, o quintal sendo invadido por lesmas e que vinha tentando livrar-se delas, e que de um momento para o outro, houve uma hecatombe misteriosa matando todas as lesmas. Ele quis gritar, dizer isso, mas os soldados não deram tempo para que pronunciasse uma palavra. A esposa e a filha, estáticas não puderam fazer nada, estarrecidas viram levar o pai e esposo para nunca mais o verem.

 

Agenor tinha ido. Agora, era apenas ela e Cecília. Cecília trazia a marca da família. O que deixava Bel em desvantagem, pelo menos assim pensava, o que não era verdade, no entanto Bel não aceitava ser a desvantagem, podia parecer conformada, mas não, é que lutava fracamente. Assim, todos os dias, com a ida do Agenor, passou a fazer também o trabalho dele. Afinal a casa não desmoronaria pela falta de um elemento. Não era de chorar a perda.

Dois dias depois, recebeu o folheto de como reduzir a água para não sofrer consequências. Agora eles não batiam na porta, desciam do céu a qualquer momento e em qualquer lugar. Por sorte ela estava no quintal quando, no silêncio dos movimentos, a sua frente, apareceu o soldado. Assim do nada, pouco se lixando se a assustava ou não, entregou o folheto e na mudez das palavras, sumiu. Quando notou, o soldado desaparecera nas nuvens. Como sumir assim? Talvez, houvesse uma aeronave, que puxou o desgraçado. Entrou em casa preocupada. Colocou os óculos, abriu o envelope e leu:

- Fica decretado que a partir de hoje, os senhores têm apenas duas horas por dia, para usar água. Mais que isso é impossível, por isso o governo fará uma abertura das torneiras municipais duas horas por dia. Os senhores terão apenas essas duas horas para fazerem tudo, beber, cozinhar, tomar banho, lavar roupa e outras coisas. Saibam como usar a água para não terem dor de cabeça.

Desgraçado, xingou mentalmente. Daqui a pouco vão controlar até o pensamento da gente. Teremos que pensar como eles querem. Como vou fazer com duas horas de água? Correu até a cozinha. Abriu a torneira. Eles estavam certo, nada de água. Mas com toda essa chuvarada? Leu mais atentamente o folheto.

- Com esses dias de temporais os senhores devem se perguntar o do porquê do racionamento tão drástico de água. Acontecem que se os senhores não perceberam essa água de chuva não é boa para o consumo. Ela tem trazido muita desgraça para a cidade, desmoronamento, ruas que desabam em buracos, estradas arrastadas por terras e outras calamidades. E pior ainda, as estações de tratamento de água estão todas destruídas pela quantidade de chuva que tem caído, portanto até que tudo se regularize aceitem as medidas de racionamento. Quem cuida tem sempre, não é mesmo?

Isso é manobra desses políticos, aposto que eles não estão dentro desse esquema, disse raivosa.  Amassou o comunicado e jogou no lixo mais próximo. Merda! Tenho que estruturar novamente meu viver. Pegou da caneta e anotou no caderno:     

- Quem sempre nadou na merda, na merda morrerá.

Fechou o caderno e foi cuidar do que tinha para fazer.

 

Cecília dizia-se sem vontade. Na verdade, morria de medo. Do que não sabia. Ao matar com sal as lesmas, estava confirmando o medo.  Não das lesmas, e sim, da sua iniquidade diante dos fatos que, não podia alterar apenas aceitar. Claro, além de nojenta, a lesma com seu rastro gosmento, é um fato que a manteve entretida por um tempo. Ao confirmar sua força sobre o verme, não estava sendo nada justificável. A lesma não tem arma nenhuma contra a fúria de Cecília. Tem apenas seu rastro gosmento marcando sua passagem.

Cecília não tinha noção do medo. Bel passou a perceber os modos da filha depois que Agenor fora levado. Talvez, Cecília tivesse descoberto alguma coisa que ela não sabia. Por outro lado, não queria perguntar. O que ela não sabia é que o medo se tornou crônico há muito tempo. É algo antigo que só agora é que percebia. Genético, carregava os genes dos antepassados. Coisa que nem ela e nem Agenor atinaram.

 Cecília estava só esperando o momento para entrar no Programa de Fecundação Anual, depois seria transferida para outro lugar, cidade ou mesmo, outro planeta. Se perguntassem o que ela sentia pela mãe, responderia nada. Não sentia nem pena. Por que deveria ter pena de uma pessoa que não se preocupava com ela? Por ser adotada, coisa que soubera de maneira enviesada, começou a entender as coisas que até então desconhecia. Primeiramente que ela fora adotada por pressão, por necessidade se não Bel e Angenor seriam considerados desligados, isto é, mortos, pois vida quem não tem utilidade só lhe resta à morte. E para fugirem disso, por meios ilícitos, adotaram Cecília. Não havia afetividade entre eles, por isso quando Agenor fora levado, não chorou e nem sentiu piedade nenhuma. Só esperava que o Programa de Fecundação desse positivo. Ouve casos, diziam, que não dera certo, e quando isso sucedia a futura mãe passava a ser empregada para o resto da vida como funcionária do Programa de Fecundação.

Cecília recebera o folheto explicativo. Leu que dali a quinze dias deveria se apresentar ao comitê do programa que a levaria até o laboratório. Lá faria uma saraivada de exames para ver quem a fecundaria.  Fecundada ficaria confinada até a criança nascer. Nascendo sem defeito físico ou mental, ela e o rapaz que a fecundou, iriam viver a vida de casado em outro planeta onde deveram ter outros filhos. Caso a criança nascesse com algum defeito, tanto físico como mental, deveria ser colocada no Armazém de Congelamento para estudos futuros, e os pais da criança seriam funcionários do Programa de Fecundação.

E quinze dias depois, preparada psicologicamente, Cecília atravessava os portões do Programa de Fecundação.

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