A música tocava de fundo. Mas ninguém prestava atenção.
Como era costume apenas fazia papel decorativo, invadia todos os ambientes,
começando pela sala, ante-sala, cozinha, banheiros, quartos até lá fora no
alpendre e quintal. Parte integrante da casa era mais um elemento
compartilhando o dia-a-dia de todos. Por isso, ninguém prestava atenção,
acostumados com ela dia e noite e noite dia sem interrupção. E aquele dia não
era diferente.
Todos reunidos, uns conversando aqui, outros na sala
discorrendo de assuntos diversos, as crianças brincando no quintal, de vez em
quando alguém passava oferecendo salgadinhos, lanches ou refrigerante,
coca-cola, cerveja, tudo típico de uma reunião alegre em que todos conhecem
todos ou todos parente um dos os outros.
Foi quando Ricardo anunciou que precisava sair. Tinha
que comprar cigarro. Ele não fumava e aquela não era hora! Nada disseram,
olharam o relógio, e continuaram conversando. Marta mal conseguia cortar os
pães de forma para o lanche. A faca escorregara de sua mão várias vezes. Da
porta, segurando o copo de uísque, Andrea observava o nervosismo de Marta. Por
duas vezes, iniciou um movimento para se aproximar, mas por duas vezes reteve a
vontade de abraçá-la. Virou de uma vez só o uísque, colocou o copo em cima da
mesa atulhada de coisas, e saiu da cozinha.
Pelo canto do olho, Marta viu a sombra de Ricardo
subir as escadas. No momento em que surgiu a oportunidade, não se fez de
rogada, seguiu os passos dele. Foi encontrá-lo no banheiro, sentado no vaso
como se estivesse a esperá-la. Abraçaram-se longamente e ali mesmo, no chão do
banheiro fizeram amor como da primeira vez. De fundo a música embalava os
movimentos dos dois ao ritmo da música barroca.
Eliana estava enfarada de tanto sexo e violência. Desligou a televisão, subiu as escadas, se enfiou debaixo das cobertas e dormiu abraçada ao silencioso vazio da casa.
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