quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Contos surrealistas – 02

  

                             Para Analdina

 

Cinco anos foi o que ouviu. Isso mesmo, cinco! E durante esses cinco anos terá que ficar ligado, atento, com o maior cuidado. Lógico que nada na sua vida mudaria. Bem que ele previra ao levantar. Hoje o dia não está me parecendo dos melhores, disse ao se mirar no pequeno espelho do banheiro. Sentiu nos raios do sol que uma mudança aconteceria. Só não sabia o que era. Até parecia a mãe. Quando acordava com os seus pressentimentos era batata. Se ela dissesse: “Hoje to com um pressentimento...”, podia ficar esperto, fosse o que fosse, acontecia. Mas ele não era a mãe. Por isso não deu pelota nenhuma ao seu pressentimento.

A única coisa que percebeu foi que acordou muito tarde. Não gostava. Achava perda de tempo, parecia que as coisas, o tempo, os gestos ficavam rápidos demais. Quando menos se esperava, pronto a noite estava engolindo o dia. Gostava de acordar cedo. Aproveitar mais o dia, fazer com que rendesse tudo dentro do presumível. E aquele dia, por cargas d’água fora acordar depois das dez ou era onze, não lembrava. Foi preciso economizar os gestos, a audácia que imprimia no fazer das coisas. Com isso tinha duas preocupações. Não estender demais as ações e ter os movimentos precisos, não se perder em lucubrações desnecessárias.

Cinco anos! E já previa todos os anos se locomovendo até o hospital. Se submetendo aos exames, aos prognósticos, aos remédios, se postar frente ao médico e deixar-se ser examinado. Não há necessidade de tratamento pesado, disse o doutor, será apenas uma pequena cirurgia, mandar para a biopsia onde se constatará se é tumor maligno ou benigno, mas é curável, se não fosse não estaria falando na sua frente, pode ficar sossegado. A única coisa é que precisará fazer exames durante cinco anos. Nesses cinco anos nada aparecendo, o senhor estará livre, completamente curado. A causa? Sol que o senhor tomou dez ou quinze anos atrás.

Bom, fazendo as contas, estava com trinta e seis, daqui a cinco anos estará com quarenta e um, ah! Ainda serei jovem, disse ao sair do hospital. Podia não apresentar mudança nenhuma, mas sabia, mesmo que não queria, estava pensando de maneira diferente, que algo dentro do eu dele era outro eu. Parado na esquina a espera do farol abrir, seu olhar tinha mudado. Talvez mais límpido mais perscrutador nos detalhes, como querendo guardar tudo no cofre da retina. Afinal em seu corpo havia algo se movendo no silencio das células. Ergueu a cabeça, isso passa como muita coisa já passou em sua vida. Benigno ou maligno não há motivo para esmorecer, a vida é um manto de aventuras e prazeres que não deixarei merda nenhuma me atrapalhar.

E entrou no metrô passando o bilhete na catraca como se estivesse iniciando a sua vida naquele momento.

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