segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Contos surrealistas – 04

Morreu abraçado ao travesseiro. O dia estava quieto e o sol lançava os raios nas paredes manchadas pelo tempo, notou alguém quando soube. Ninguém ouviu, apenas notaram sua ausência nos afazeres corriqueiros. Também não perguntaram onde ele estava. Apenas notaram sua ausência e nada mais. E ele não era uma pessoa que se pudesse dizer carismática, que todos o apreciavam em larga escala, que fosse imprescindível sua presença. Gostavam dele sem alardear o fato, o que achavam não ser necessário. Era uma pessoa cumpridora dos afazeres. Traçava o seu caminho conhecendo os desvios e as ribanceiras. O que ele tinha que fazer, fazia sem perguntas e sem delongas. Não havia a desenvoltura sólida em decidir problemas, de compreender além da vida. Não, ele não era assim.

Morreu abraçado ao travesseiro no silêncio da manhã. Questionaram o do porque abraçado ao travesseiro. E quem poderia responder? Ninguém, nem os mais próximos a ele tinham resposta a essa pergunta. Talvez, estivesse carente ou pensava em alguma pessoa em especial. Quem sabe estava com frio e achou que o travesseiro o aquecesse. Duvidavam de todas as teorias que era apresentada. Nunca lhes passara pela cabeça que ele fosse uma pessoa que se encaixasse em tudo o que diziam. Impossível, exclamaram os amigos. Tudo nesta vida é provável, retrucavam as mulheres. Os maldosos afirmavam que foi a bebida. Os invejosos levantaram questões de que era viciado. Mas ninguém conseguia confirmar viciado em quê.   

Morreu abraçado ao travesseiro na poltrona perto da porta. Perguntaram se ele deixou bilhete. Como bilhete, não se suicidou, apenas morreu. E quem morre assim não deixa bilhete. A questão de suicídio foi levantada. Como uma pessoa normal ao extremo, chegando ao ponto de ser banal até os limites, poderia se suicidar? Durante toda a permanência dele na pele da vida, nunca apresentou indicio de paranóia, muito menos depressão, remoendo pelos cantos as dores inexistentes. Até o consideravam alegre, conversador quando chamado para as reuniões alcoólicas das sextas-feiras. Gostava de um bom filme, bom livro, esportes o único que apreciava, se é que pode ser considerado como esporte, era o xadrez. Não fugia de desafios e raramente perdia uma partida.

Morreu abraçado ao travesseiro era de conhecimento de todos. Porém nem todos sabiam da sua vida sexual, isto é, se namorava se tinha amante, se era casado, ou gay. Dissecados todos os porquês passaram a questionar a privacidade do rapaz. Raramente o viram acompanhado seja de mulher ou de homem. O diagnóstico, já que morava com a mãe, ele era gay. No entanto o que prevaleceu foi solidão. Nesse ponto ouve uma concordância geral: realmente a solidão acaba com qualquer pessoa, diziam um para o outro. E com o passar do tempo, as teorias foram se esmorecendo até cair no esquecimento total. E a única probabilidade que não contavam é que ele morreu por que tinha que morrer, como diz os mais velhos: era a sua hora e dela ninguém escapa.

Morreu assim, abraçado ao travesseiro, não por que quis e, sim, por que foi sua hora.

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