segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Diário de um sentir – Caderno número 8.761(2021)

                          

            Com cuidado de alquimista, preparou os objetos, os utensílios, copos, canecas, palitos de sorvete, telas, luvas sujas, tintas de diversas cores e outras tralhas que pudesse usar. Colocou todos em cima da mesa no meio do ateliê. Estava mexendo na mistura do amarelo com vermelho e branco quando o insidioso inseto começou a voejar a sua volta. A princípio não deu importância, mas o maldito inseto não o deixava sossegado, procurou afugentá-lo, primeiramente com as mãos enluvadas e sujas de tintas, com isso os respingos de amarelo e vermelho misturado com branco se impregnaram a sua volta, na parede, na mesa, nos seus cabelos, sobre a tela que estava trabalhando. Com desagrado pavor viu que teria que repintar, a tela estava mutilada pelos terríveis respingos de tinta. Falou um filha da puta bem sonoro e reconheceu o desperdício, os gastos, aquela mistura não poderiam mais ser usada, teria que jogar fora. Maldito inseto. Porque existem, berrou sem ter uma resposta. Tinha de matá-lo isso sim, disse a si mesmo. Tinha como regra eliminar tudo o que lhe atrapalhava. Pegou o inseticida e borrifou pelo ateliê inteiro. Sem perceber os respingos caíram na tela e não viu o inseto pousando nela. Confiante de que tinha eliminado o maldito, voltou sua atenção para o que fazia. No entanto ao pegar a tela para ver se a aproveitava, quando a ergueu na altura dos seus olhos, horrorizado viu dois longos ferrões se aproximando do seu rosto e, num lance rápido sem dar tempo de se desviar, sentiu a ferroada em suas bochechas. Largou a tela que caiu no chão. E sentiu que estava encolhendo até que ficou do tamanho do inseto. Petrificado viu que preso se tornara um acessório, um componente da tela, não sairia mais dali. E hoje em alguma parede de alguma sala de alguma casa estava preso a tela enfeitando o ambiente.

            É isso...ou, não é?

 

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