Oito horas
Oito horas. Oito horas da manhã de um dia qualquer. Um dia qualquer que nada
vem representar se nada ocorrer. Mas sempre ocorrerá uma coisa ou outra, seja
ela positiva, seja ela negativa. O que temos a fazer é filtrar as coisas,
filtrar de maneira que a força negativa seja transformada em algo razoavelmente
positivo, que faça com que aquela parte dentro da gente seja satisfeita e,
assim possamos mudar os passos que nos levará a completar o dia a partir dessa
manhã qualquer.
Oito horas. Oito horas que já não são mais oito
horas e, sim oito horas e cinco minutos, o que torna ao mesmo tempo presente
passado nossos movimentos instantaneamente concretizando-nos na cena da vida.
Oito horas e cinco minutos e já perceberam que não sei o que escrever e, no
entanto forço a mente a pressionar os dedos nessas teclas – quantas vezes usei
essas palavras? É preciso mudá-las – na tentativa em dizer alguma coisa
interessante. Vocês meus leitores assíduos, o que espero que sejam, acompanham
o deslumbre em que me entrego a escrita, quase que desbragadamente.
Oito horas. Oito horas que já não são mais oito horas e, sim oito horas e treze
minutos que vai se arrastando num cinza de chuva e frio, segundos a segundos,
sem que possamos interferir nos acontecimentos previstos no calendário
profissional, esquecendo-nos do calendário do prazer e lazer. Aonde vamos afundando num marasmo cotidiano de números
tridimensionais, ou melhor dizendo, abstratos de ganhos e perdas, talvez mais
perdas do que ganho. Aonde os acontecimentos depositados no recôndito da carne
são ignorados para os imediatos acontecimentos deflagrando espanto raiva ou
ódio aos nossos olhos cansados.
Oito horas. Oito horas que já não são mais oito
horas e, sim oito horas e vinte e três minutos que talvez precise interromper
essa escrita e voltar minha atenção ao que não quero prestar atenção. Mas tudo
bem, como se diz num jargão de otimismo: dias melhores virão. Vamos então
esperar esses dias melhores que nunca chega, mas que traz esperança aos que não
estão cansados de esperar. Eu já estou cansado de esperar, talvez seja
necessário colocar ponto final nisso tudo. Não acham? Então vamos lá: ponto
final.
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