O que poderia escrever a zero hora e quinze
minutos da madrugada? Deixou que os dedos longos e grossos empunhando a
esferográfica preta imprimisse palavras sorrateiras nada inteligentes sobre si
mesmo, principalmente seus sentimentos. E onde estavam esses sentimentos?
Escondidos no subsolo do inconsciente emoldurado por uma moldura branca da
timidez. As palavras surgiam velozmente por sobre as linhas brancas do pequeno
caderno de capa dura azul. Não era diário. Não era confidência e muito menos
segredos. São apenas caracteres simbólicos em forma de palavras que não saem do
mesmo lugar, ficam repetindo sempre as mesmas coisas, dando voltas em algo de
difícil de compreender, até ele mesmo não compreendia. No entanto continuava
escrevendo, procurava forma de se expressar sem complicações e não conseguia. O
que precisaria para mudar? Ler? Olhou para a pilha de livros amontoados no chão
da sala... já leu todos... tinha a pretensão de reler todos, era o que estava
fazendo... reler as palavras já escritas para aprender a escrever as palavras
que lhe faltam... bom, decidiu, melhor dormir... Melhor dormir, repetiu, apagou
a luz da sala, da cozinha e se jogou na cama desejando que o sono o levasse logo.
Merda!
É
isso... ou, não é?
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