Buraco! Estava num buraco
Buraco! Estava num buraco. Ou aquilo não era um buraco? Se não era o que era
então? E o que estava fazendo nesse buraco? No meio da Paulista? No meio da
calçada do Conjunto Nacional? Tudo bem, mas como se explica ele dentro desse
buraco? Não tem explicação, caiu e pronto. Olhou para cima e viu o círculo
branco pequeno do céu. Mas como poderia dizer que estava num buraco na
Paulista? Claro, escuta os carros, os ônibus, as pessoas, os passos das
pessoas, as vozes das pessoas? Mas isso pode se ouvir em qualquer buraco da
cidade seja onde for. Sim, concordo, mas olhe para cima, preste bem atenção,
esta vendo, no meio do céu, não está vendo a marquise do Conjunto? Então,
portanto estou na Paulista. E como não fui prestar atenção! Bem feito,
prestasse mais atenção, aguçasse mais os ouvidos, mas não, quer andar
despreocupado, pensando na morte do boi, com essa mania de andar molemente,
indolente, desleixado, admirando a bunda das meninas, se extasiando com a
sexualidade das mulheres de barriguinha de fora, se preocupando apenas com o
que poderá escrever todas as manhãs, isso que dá. Agora está preso dentro desse
buraco.
Já esteve em outros buracos? Não lembrava.
Talvez já estivesse quem poderia dizer com firmeza? Levantou. Esfregou os olhos
para que se acostumasse com o escuro, para que pudesse visualizar alguma coisa.
Talvez uma saída. Buraco não tem saída. Tem? Não sei, a não ser, subir pelas
paredes e sair pelo circulo de luz lá em cima. Foi o que tentou, mas a parede
lisa, meio que úmida e gosmenta trouxe ele de volta ao chão. Não tinha como
sair. Gritar não adiantaria ninguém lá em cima o ouviria. Precisava sair do
buraco. Mas como? Sentou. A umidade do chão invadiu o jeans grosso e alcançou a
carne dolorida e cansada. O peso do silêncio angustiava prendendo sua
respiração que se tornou mais compassada. Sentiu algo roçar seu braço esquerdo.
Recuou apavorado. O que seria? Barata? Rato? Aranha?
- Não se assuste. Você não está sozinho nesse
buraco. – falou um senhor de cabelos branco sentado ao lado dele.
- Como?
- É você não é o único nesse lugar. Olhe em
volta.
Horrorizado vislumbrou a sua volta outras
pessoas.
- Você não está sozinho – disse o velho - caiu
aqui esquece o mundo lá de cima.
- Não, não posso esquecer o mundo lá de cima
não. Tenho casa, família, amigos... Só não sei como foi que cai aqui ou por
quê?
- Resignação – falou o velho.
- Resignação?
- Isso mesmo. Somos todos uns resignados.
- Eu não sou resignado.
- Se não é porque está aqui?
- Porque tropecei em algo e não vi o buraco,
aliás, buraco tem em qualquer lugar, não é?
- Concordo. Porém nem todos os buracos são iguais.
- Aí que está. Não sou igual a vocês,
resignados, vou procurar um meio de sair daqui.
- Então porque continua sentado?
- É porque não sabia onde estava e que havia
outras pessoas, pensei que estivesse sozinho.
- É isso aí.
- Isso aí o que?
- Ninguém vive sozinho, não é?
Estava ficando com raiva do velho. Não seria
como eles. Procuraria uma saída sim, aí veriam que ele não era o que pensavam.
Com muito esforço conseguiu se levantar. Deu uns passos para frente. Bateu na
parede. Girou o corpo meio grau à direita. Deu mais alguns passos. Outra
parede. Girou mais o corpo quase todo. Deu outros passos a frente. Mais uma
parede. Desistiu. Sentou novamente. Compulsivamente a garganta se prendeu num
espasmo de choro. Segurou. Homem não chora, disse mentalmente. Deitou no chão
úmido. Procurou descansar, talvez dormir eternamente. Fechou os olhos tentando
descobrir onde estava o velho.
- Que velho?
- O velho que dizia que eu não iria sair do
buraco.
- Não sei de velho nenhum.
- Ah! Bom, vou continuar dormindo.
- Nada de dormir. Levanta. Precisa tomar o seu
remédio.
- Remédio?
- É o remédio se quiser ficar bom e sair daqui.
- Ah! Está bem. Vou tomar o remédio sim, afinal
quero ficar bom.
Pegou o comprimido da mão da enfermeira, colocou na boca e depois entornou um
bom gole de água. Em seguida, estirou o corpo todo dentro do buraco pouco se
importando se iria ou não sair dali. Queria apenas, no momento dormir.
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