sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

Pequenas histórias 325

Olhou os papéis


É preciso anestesiar a alma para que o corpo se entregue aos prazeres da carne.

                                                                Jean Alzair.

Olhou os papéis, jogados de um lado para o outro, canetas de três tipos de cores, grampeador no canto solitário, a foto da esposa e filho, o telefone mudo, objetos que traziam a ele algo que não sabia o que era. Nunca pensou em checar onde estava. Era como ter o mundo aos pés. Que exagero! Bem, mundo não, seria muita hipocrisia pensar dessa maneira. Que tinha um pequeno poder de decisão sobre o pessoal tinha. Olhou o ambiente, cabeças baixas e olhos compenetrados, dizia ser ele a peça principal do jogo. Jogo! Isso é um jogo? E se for que jogo seria? Do mais forte, do mais inteligente, do mais esperto, daquele que enxerga longe, do puxar o tapete... Nisso viu Norbeto chegando. Como sempre atrasado. Precisava falar com ele novamente. Porque não aprendem que o horário é oito horas e não oito e cinco, oito e vinte e muito menos nove horas! Porra! Não vou ficar todos os dias puxando a orelha um por um para lembrarem isso! Desviou o olhar um pouco para esquerda. Adriana. Moça bonita, inteligente, preguiçosa, fazia de tudo para fugir do trabalho, mas quando se punha a trabalhar... Estava sempre lançando epítetos em sua direção de duplo sentido. Tem fama de conhecer os homens na intimidade, a maioria. Ao lado dela o Odilon, seu amigo... Amigo! Eram amigos? Ainda se sentia amigo dele, mas Odilon se afastara. Por quê? Nada lhe fizera. Continuava o mesmo, pelo menos era o que pensava. Dez anos que o conhecia. Entrou um pouco depois dele. Eram boys, viviam pelos corredores, subindo e descendo escadas num leva e traz de documentos e papeis. Depois do expediente saiam juntos conversando, fazendo piadas um com o outro, tirando sarro dos colegas, e nas sextas feiras, os dois e mais alguns percorriam a noite em baladas com mulheres e cervejada. Como ele bebia, nossa! Não sei se ainda bebê como antigamente. Tinha uma lábia perigosa. Dizia uma frase de um escritor que vivia lendo: “É preciso anestesiar a alma para que o corpo se entregue aos prazeres da carne”. E enchia o caneco de cerveja. Parecia acreditar nisso, pois se encostava a uma mulher, podia contar, dois segundos depois, estavam aos beijos e abraços, e acabava em algum motel barato da cidade. Que tempos bons eram aqueles! E agora, estava ele ali, de cabeça baixa, trabalhando como doido, enquanto eu aqui estou a observá-lo. Lembrava quando fora promovido a chefe dos boys. Na época não prestara atenção, já havia uma diferença no comportamento dos dois. Era uma coisa inconsciente, que nem ele e nem Odilon perceberam. Se Odilon percebera nunca soube. Não queria admitir, mas fora um pouco sacana com Odilon, apenas sacana. Foi uma coisa insignificante, se não fosse isso não teria sido chefe dos boys e, consequentemente, não estaria onde hoje estava. Ele somente mexera os pauzinhos. Quando correu o boato de que um deles seria o chefe, nada mais fez do que lutar para ter o cargo. Claro que tudo foi às claras, não escondeu de ninguém. Apesar do boato discordando negativamente, o que o deixava incomodado, como estivesse sendo sacana com todos e, principalmente com Odilon.  O único ponto negativo da história era que Odilon acabara sendo seu subordinado. Todo o dia estava ele ali na sua mesa para lembrar como chegara aonde estava. Tinha a consciência sossegada, mas será que vinha agindo como deveria agir com um cara que considerava como amigo? E Odilon, o considerava ainda como amigo? Não sabia. Teria que conversar com ele. Arranjar um tempo, uma hora, uns minutos, quem sabe uns segundos bastavam. Por que não agora? Já estava em pé quando o telefone tocou. Olhou para o telefone e para o amigo. Por uma coincidência Odilon olhou para ele também. O telefone continuou tocando. Ficou na dúvida. Sabia quem estava ligando para ele. Tinha uma reunião importante a qual não poderia faltar. O que era mais importante: atender ao telefone e ir para a merda da reunião ou ir conversar com o amigo, o qual fazia tempo que planejava conversar? Atendeu ao telefone e foi para a merda da reunião. Afinal tinha mulher e filhos, não poderia perder o emprego. E amanhã é outro dia, quem sabe conseguirá arrumar um tempo para falar com o amigo.

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