Não havia nenhuma palavra
Não havia nenhuma palavra na casa de Ethan. Poderia por todos os cantos,
cômodos, armários, cristaleira, sótão, garagem, onde fosse que não se
encontraria palavra alguma. Ethan não se preocupava com isso. Tinha
outras coisas para pensar. Elaborar projetos que pudessem melhorar sua vida,
talvez indiretamente vidas de outras pessoas, por que não? Achava a casa
esquisita, isso disse várias vezes ao ser questionado sobre a situação. Sim,
nos primeiros anos, esse negócio de ficar no silêncio das palavras não ditas,
deixava-o intricado, meio que incomodado com o fato. Pesquisador de saúde
alternativa, praticante de Yoga tântrica corporal e mental e sexual, chegou ao
um ponto que nada causava estranheza.
Só foi notar a falta de palavra ao rondar pela casa toda, aos quinze anos. O do
porque tivera a vontade de rondar a casa não sabia explicar direito. O que o
motivou percorrer todos os cômodos, banheiro, sala, conzinha e quintal, nunca
soube. O que soube naquele dia era que na casa não havia palavra nenhuma. Tal
fato não foi causador de estranheza. Apenas uma pequena sensação de esquisito,
de que algo deveria ter e não ter acontecido ou, que aconteceu o que não era
para acontecer e, já que aconteceu não havia mais nada a fazer, a não ser, se
acostumar com a ausência de palavras.
Foi de uma dificuldade chegar a esse ponto de
equilíbrio. Havia algo misterioso, que o queimava instigando-o a percorrer a
casa toda. Numa manhã de sol abrasador logo às cinco horas, onde o sol lançava
seus raios vermelhos na distância da vida, ao colocar os pés nos chinelos
velhos com buracos na sola, excitado sentiu a premissa em percorrer todos os
cômodos da casa.
O gozado é que não começou pelo quarto. O que deveria ser, pois acordou naquela
manhã no seu quarto. Mas não. Levantou, foi ao banheiro para as primeiras
necessidades matinais, se trocou, desceu as escadas, saiu para a rua. Virou-se
para casa e com passos decididos, como se estivesse vindo da rua onde fora
fazer alguma coisa necessária, entrou primeiramente na sala. Olhou todo o
ambiente, a mesa com as cadeiras, a televisão desligada, o sofá, e tudo o mais,
até as quinquilharias lindamente depositadas na cristaleira. Olhou com afeição
cuidada, item por item, até as cortinas impedindo a entrada do sol. Abriu
totalmente as cortinas. A luz do sol invadiu a sala iluminando-a em todos os
recantos. Ethan quase desfalecido sentou no sofá em frente à televisão. Ali
naquela sala onde tantas vezes sentara para assistir as porcarias apresentadas
na televisão, constatou melancolicamente triste que não existia nenhuma
palavra.
Ethan por fim se dirigiu a cozinha. A cozinha
onde deveria existir uma empregada rabugenta e resmungona estava silenciosa e
vazia. Também para seu pavor constatou não existir palavras, a não ser, a
frieza branca dos móveis e dos azulejos. Ethan demorava a formular a pergunta.
O que era preciso mentalmente, seus lábios não conseguiam expressar em
palavras. Mesmo a pergunta surgiu na mente como forma abstrata sem ser
propriamente uma palavra. Por que não encontrava palavra? O que fizera para que
elas desaparecessem?
Ethan sabendo o que encontraria nos quartos
subiu assim mesmo os degraus silenciosos da escada. No topo olhou para a
direita, depois para a esquerda. Arfava não por causa da subida, mas pelo o que
poderia encontrar. Abriu a porta do quarto de hóspedes. Nada, tudo na mesma,
silêncio de palavras, talvez escondidas e que ele não encontrava. Como essas
coisas podem acontecer? Presumiu um futuro de silêncio aterrador. De silêncio
mudo em que os lábios permaneceriam colados um ao outro. Teve a terrível noção
de que desse dia em diante, seria mais um mudo a perambular pela cidade sem
palavras. Não, isso não podia ser. Talvez no seu quarto estivesse a salvação.
Passos em que hesitava os seguintes passos, na lentidão da demora, chegou a
frente a porta do seu quarto. Deveria abrir? O que encontraria? Nada do que
soubesse ou que viesse a atormentá-lo. Colocou a mão na maçaneta. A frieza do
metal beijou a pele da mão. Ethan colheu a frieza do beijo chamuscando o sentir
pavoroso. Abriu a porta. Abriu e recebeu no rosto o silencio da frieza de
sombras vindas das janelas fechadas. Sentiu o arrepio percorrer toda a espinha.
Não quis acender a luz, não precisava, sabia que não precisava.
Ethan então, numa sequencia de movimentos quase estudados, deitou na cama,
jogou as cobertas por cima do corpo e, no mesmo momento estava dormindo.
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