terça-feira, 29 de março de 2022

Raquel 2

 Ouvia as risadas como afronta. Não entendia como duas pessoas civilizadas poderiam rir daquela maneira. Tudo bem alegria é bom, é bom ser alegre, mas esbanjar risadas desproporcionais numa demonstração de virilidade é algo meramente ridículo e de uma baixeza nada masculina. De onde estava, enxergava os dois rapazes. Raquel encolhia o semblante ferido grotescamente pelas risadas. Em público tal procedimento só tinha apenas um caráter: fraqueza masculina querendo demonstrar virilidade. O que, para ela, surtia efeito contrário: os dois não passavam de crápulas obscenos jogando palavras no ar do restaurante, ferindo mentes de que nada tinham de ouvir o que diziam. Destrinchando lentamente o pedaço de calabresa, Raquel sentia-se pequena. Sim, era isso, isso mesmo, pequena, era tão somente uma pessoa pequena diante das risadas dos rapazes. E por quê? Remoeu pensamentos antigos, atuais e até uma parte do futuro e o que encontrou foi um nada dizendo que o nada estivera sempre ao seu lado. Nunca na sua vida pacata de burguesa feliz, se comparava com as risadas dos rapazes na mesa do restaurante. Nem mesmo o dia nublado, apesar do verão, ainda bem que não estava frio, apenas uma intensa garoa molhava a cidade, poderia transformar aquela sensação em algo banal. Claro que as risadas, os gestos, os modos e até os rapazes, eram ridículos. Mas quem não foi pelo menos um dia ridículo, não sabe o que é viver a alegria de ser.

Quanto a isso, Raquel tinha certeza. Viver. Eis a profissão de fé onde cada indivíduo trazia a certeza de ser. Uns trazia de longa distância sendo descoberto poucos minutos antes da morte. Nessas ocasiões, rogavam a Deus mecanicamente suas dores pueris. Outros, não descobriam nunca se achando invulneráveis praticando horrores com medo da solidão. Outros ainda, possuidores da soberba ignorância, batiam no peito proclamando seus erros e pecados. E alguns não estavam nem aí para o que pudesse com eles acontecer. Raquel pertencia a uma dessas categorias. Qual? Perguntou o inconsciente temendo vir à tona o escondido há tanto tempo. Um dia, querendo ou não, veria a superfície revelando suas dores ignóbeis de pura cidadã do mundo. Mas no momento, não queria ser descoberto.

Chamou o garçom, pagou a conta e saiu. Da porta olhou para traz e lá estavam os dois rapazes banhando-se de alegria pouco se importando se incomodavam ou não aos outros.

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