quarta-feira, 20 de abril de 2022

Estevam.

 

Ao apertar o botão ao lado da palavra chocolate, e, logo depois ouvir a máquina pondo sua engrenagem em funcionamento, teve uma ligeira insatisfação que, lhe pareceu, fora de propósito. Retirou o copo assim que o aviso sonoro anunciou que o chocolate estava pronto. Mexendo com a paleta própria para isso, se dirigiu a sua mesa de trabalho.

Precisava criar uma personagem. Uma personagem forte, decidida e colocá-la numa história que prendesse a atenção de todos. Talvez, um sujeito sabendo que tem pouco tempo de vida resolve fazer algo extravagante, inusitado, matar por exemplo. Pode parecer que estivesse imitando Patricia Highsmith. Sim, até poderia, mas a sua personagem não tem a característica de Jonathan, personagem de O Jogo de Ripley. Enquanto Jonathan não sabe o que lhe acontecerá, coisa que o leitor ao progredir na leitura vai imaginando, o personagem dele sabe o que lhe acontecerá. Sabe que deve por em prática o plano bolado. Apenas precisaria colocar um toque de Albert Camus ou, talvez mais superficial, tipo Stephen King.
E ao mencionar a si próprio refletido no espelho, um arrepio percorreu o corpo dando-lhe mórbida satisfação. Só precisara definir a vitima. Um desconhecido? Não, não teria prazer nenhum. Prefere uma pessoa conhecida. Uma pessoa chegada a ele, uma pessoa... Não sei, gritou abafando o grito na garganta. Velho? Seria fácil demais. Tem que ser mais jovens, aliás, velhos não transam como os jovens, disse sorrindo ao lembrar-se de duas pessoas idosas beijando-se despudoradamente. Não soube explicar, mas a cena revirou o estômago. Tudo bem continuou pensando, tudo bem, eles também tem desejo, necessitam de sexo como qualquer outra pessoa. Não, velho, pessoas idosas não tem nenhum prazer. Não oferecem resistência suficiente. É preciso um jovem, forte, que ofereça resistência, que desse prazer em concretizar o ato. Todo ato deve ser seguido de prazer. Pois concretizar um ato sem prazer, é como beijar mulher feia, disse ao fechar a porta do guarda-roupa.
Estevam, nome provisório, estava com os dias contados, dissera o médico. Contados em anos, dois anos, fora categórico o diagnostico, se por sorte ou por uma advertência milagrosa, coisa que era impossível de acontecer, talvez chegasse a quatro ou cinco anos, mais que isso difícil. Claro, como todos os seres, abstrato ou não Estevam entrou em pânico, em estado de choque por vários dias, como um autômato andava de um lado para outro não se importando com nada. Assim ficaria se não tivesse acontecido uma reviravolta em seus pensamentos. Foi, vamos dizer algo despertou dentro dele dizendo que poderia e, o que era melhor, deveria fazer o que entendesse. Sempre foi um cara além do seu tempo, tendo passado por diversas e esdrúxulas experiências, começou a matutar o que ainda não fez e o que satisfaria o seu eu faminto.    
Alinhavou numa ordem morbidamente servil, tudo o que até agora fizera. Cauterizou as partes negativas, detalhou as partes positivas e, tirou das experiências o sumo que pudesse fazer da insanidade a linha do seu progresso. Criou um minucioso roteiro para evitar os imprevistos sem cair nas mesmices do dia-a-dia. Depois de pronto, passou a estudar a vitima. O mais dificultoso foi à escolha, o que lhe tomou mais tempo. Tudo porque não conseguia definir as características de cada uma, mesmo porque sua visão era uma visão estereotipada, isto porque, não tinha uma intimidade que pudesse ser constante. Estevam não era de muito amigos e, os que tinham não os consideravam como realmente deveria.

Portanto, minuciosamente se preparou como o caçador se prepara para caçar. Tendo a caça escolhida se colocou em campo cortejando, estudando os modos, as atitudes, os caminhos até que sentiu a caça pronta para ser abatida. E nesse dia, num golpe suave, mas certeiro abateu a caça e levou-a ao local escolhido. Tudo dentro do planejado, enquanto estava adormecida, curiosamente passou a vasculhar milímetro por milímetro as partes externas do animal. Correu a língua umedecida pelas reentrâncias saboreando a pele salgada e doce. Perpassou a mão calejada pela convexidade dos pelos aquecidos farejando o líquido da vida. Lentamente, percebeu o despertar da caça, o efeito do éter estava terminando, assim sendo não deixou que gritasse proporcionando um vai e vem brutal e ofegante. Ao mesmo tempo enlaçou o pescoço doce e gostoso com um fio de nylon, o qual ia apertando ao ritmo das estocadas. Num frenesi, chegou ao orgasmo no instante em que a vitima soltou o último suspiro.

Dias depois a policia encontrou um corpo em decomposição boiando no rio que passava nos arrabaldes da cidade. Dado como indigente assim foi enterrado.


Largou o jornal em cima da mesa no centro da sala. Pegou o copo de uísque. Abriu a janela e o barulho do dia irrompeu o ambiente adentro. Como pode essas coisas acontecer? Acreditava que isso só acontecia em romances, livros, filmes não na vida real. Mas lá estava estampado no jornal a noticia do assassinato. Apenas a descrição da moça era diferente, o resto é tudo igual, até o modo como detalhara no conto. Outra coisa. O jornal que ele vendeu a história e que foi publicado o conto, não noticiava o assassinato, só os outros jornais. Será que tinha o dom da premonição? Duvidava. Voltou para a poltrona assustado com o que pensava. Alguém estava escrevendo sobre ele, alguém estava manejando seus gestos, seus atos como se ele fosse uma marionete, assim como ele escrevia sobre Estevam! Bom, engoliu o uísque de um gole só. Encheu novamente o copo e sentou-se em frente ao micro.

Estevam estava excitado. Não podia negar. Todo o trabalho que tivera para enredar a caça, fora de uma capacidade excitante. Via que não ficaria muito tempo sem cometer outro assassinato. Notava por baixo da pele, o fogo queimar em ardência pelo desejo a saciar. Corria novamente em sentir o impulso dominando-o. Ouvir a vibração do medo nos olhos doloridos da vitima. Escutar as lamentações doces e suaves percorrendo os labirintos do ouvido. Captar as veias pulsando sobre a pele num excitamento incontrolável.

Quando o veredito médico foi pronunciado, não entrou em desespero, caiu numa passividade gritante onde não sabia o que lhe poderia acontecer. Foi quando, num estalo, já que de uma hora para outra iria morrer, descobriu que podia fazer algo que nunca fizera. Depois de muito matutar, depois de colocar todas as coisas que já fizera que denominasse como experiências, em estudo, chegou à conclusão que nunca praticou um assassinato. A princípio se horrorizou com a ideia. No entanto, quanto mais pensava, mais fortalecia a vontade em concretizar o ato. E um dia, inconsciente, viu sobre a mesa o plano escrito em detalhes, apontando as coordenadas, os riscos, e as vantagens. Claro, surpreendeu-se. Não lembrava ter escrito todo aquele amontoado de anotações e direções. Dos seus lábios contraídos surgiu um sorriso levianamente cruel.

Caiu em si. Era aquilo mesmo que gostaria de fazer. Era aquilo a última coisa que faria na face da terra. Matar! Que gosto há em matar? Que sabor deveria ser ao ver alguém morrendo diante dos seus olhos. Estevam não sabia. Precisava colocar o plano em prática para saber. E não pensou duas vezes. Esboçado o plano, plano executado.

Olhou para o jornal dobrado em cima da mesa no centro da sala. Em letras de caixa alta, gritava no silencio das palavras: ENCONTRADO UM CORPO FEMININO ASSASSINADO VIOLENTAMENTE. Ao ler aquilo, corroborou todo poder orgástico de sentir-se um deus.


Qual o objetivo da vida? Onde lera isso? Procurou nos escuros recantos e, sem querer, lembrou-se de uma brincadeira que a mãe fazia. Parada no ponto do ônibus, para amenizar a impaciência da espera, ela dizia:

- Vamos ver se você descobre onde está escrito a palavra Bolo?
E sendo ele criança, estava aprendendo as primeiras letras, portanto começando a ler, procurava ansiosa a palavra por ela escolhida. Às vezes levava tempo para encontrar, ou encontrava fácil, ora estava num letreiro, numa placa indicativa, na parede de algum prédio, ou mesmo em algum veículo parado. Com isso a espera tornava-se amena.

Foi então que, com um gesto de mão alisando os cabelos rebeldes, lembrou onde tinha lido. Ao pegar o pote de ração, seus olhos cinza escuro deram com o panfleto jogado displicentemente em cima da cristaleira da cozinha.

No mesmo instante em que leio, jogou a pergunta para dentro dele, filtrando de uma maneira diferente, reformulando: Qual o objetivo da tua vida? Aterrorizado, o olhar perdido nas letras, permaneceu aterrado no meio da cozinha sem ter a resposta certa ou conveniente. E, assim mesmo, tornou a reformular a pergunta: Qual o objetivo da vida? Puta que pariu, disse mentalmente, não nunca tinha pensado na vida, se ela tinha ou não um objetivo. Jogou-se na cadeira que rangeu sob seu peso. Colocou mais uma dose generosa de uísque no copo. O objetivo da vida! Que coisa expectante essa. E a vida tem algum objetivo? Primeiramente antes dessa há outra pergunta mais importante. O que é a vida? É, isso mesmo. O que é a vida? Porra, pergunta difícil deveria ser proibida. A vida, ora a vida é a vida, nada mais. A vida é tudo que vemos e sentimos. É tudo que nos faz sentir que somos importantes a ela. A vida não cabe numa resposta, mesmo que a resposta seja tão imensa quanto à própria vida. É um troço incomensurável que não cabe numa frase, numa sentença e muito menos numa teoria bem explanada. A vida é um tudo e ao mesmo tempo é o nada que trazemos dentro de nós. Cada um tem e vê a vida como lhe é importante ser e sentir.

Despejou as últimas gotas de uísque no copo, jogou a garrafa no lixo, prestando atenção no som oco ao bater do vidro na lata, já pensando em comprar outra. Bem, a vida não é só acordar, levantar, tomar banho ir para o trabalho, discutir futebol e, muito menos é, ficar em baladas, beber, paquerar mulheres fáceis e descartáveis num frenesi alucinante. Não era nada disso. A vida era algo, além disso, algo...! É um romper as células compreensíveis, é beber a visão diurna em que deparava todas às vezes ao abrir os olhos. É satisfazer desejos boiando no limo do preconceito moral. É alimentar a alma livrando-se da razão atrofiada pela monotonia da sobrevivência
E ele? Tinha direito a desejar o seu objetivo? Creio que sim, claro que sim, principalmente nas minhas condições, o direito da vida é todo meu, isto é, posso fazer dela o que eu quiser. Até matar? E por que não? Já que vou morrer mesmo? Tem certeza? Olha os exames médicos indicam que o máximo que posso viver é um ou dois anos. E pergunto: porque tenho apenas de viver esses dois anos, isto se os exames médicos não estiverem errados, certo?
Que certo que nada... Porra!

 

Estevam não sabia por que se impacientava. Quando se sentia assim, é que alguma coisa lhe aconteceria. Andando despreocupado, não pensava propriamente em nada. Vazia a mente, flanava sentindo os pés em longas passadas como se estivesse pisando em flocos de nuvens. Suas passadas eram frias, não calculadas, sem o ardoroso esbravejar do calcanhar batendo nas pastilhas da calçada.

Cronometrava o tempo de uma passada a outra, o tempo em que o calcanhar esquerdo levava para bater na calçada enquanto o calcanhar direito se elevava na espera da sua vez. Assim distraído, nessa concupiscência quase matemática, não reparou que em sentido contrário surgiu uma loira que, por motivos desconhecidos, trombou com ele. Foi um encontrão repentino curto, mas que o abalou por não estar à espera dele. Seus ombros, dele o esquerdo e o dela o direito, se chocaram a ponto de fazer com que inconsciente do ato, desse um passo a traz. Despertado do devaneio, movimentou os lábios para expressar uma desculpa, mas se retraiu magoado ao ver que a loira mal prestou atenção nele.
Foi como um alerta psíquico. A princípio pequeno, em seguida, aumentou de intensidade. Pequenas pontadas prolongaram-se cada vez mais. Rilhou os dentes, quase esbravejou filha da puta não pede desculpas não? Seguiu com o olhar lúdico a figura esbelta rebolando desejo entre a multidão. Gritou entre dentes um palavrão seguido de isso não vai ficar assim. Girou o corpo, cravejou os olhos na blusa vermelha estampada. Como autômato passou a segui-la.      
Não sabia por que seguia a loira, quer dizer, saber sabia, não nitidamente. Sabia que tinha ou precisava aplicar um corretivo. Seus modos denunciavam ser ela desprovida de qualquer tipo de compaixão. E como detestava pessoas sem compaixão! Chegava a ter pena, chegava a sentir na pele a dor que ela provocava. Por isso a seguia. Sim era por isso mesmo.

Viu o caminho que ela fazia, onde morava, e chegou ao dia-a-dia ter total conhecimento do seu mais íntimo movimento. Com isso foi fácil capturá-la como se captura uma borboleta. Pensou radiante ao vê-la deitada, frágil no banco traseiro do carro. Mais uma borboleta para minha coleção. Ah! Pena que não sou colecionador, não é? Sorriu satisfeito.

 

...talvez um dia / por descuido ou fantasia / helena, helena, helena, como gostava dessa música! Vivia cantando: helena, helena... Mas hoje não gosto mais, sabe por quê? Vulgaridade sabe o que isso, Elena tornou-se vulgar, não acho que você sabe, não é, vulgaridade é isso o que se tornou Elena, tudo culpa da novela, mas o nosso problema não é esse certo? Sabe por quê? Por que estou feliz, é feliz, ah, não sabe ou não quer dizer, ah! Desculpe, não posso deixar você sem a mordaça, vocês mulheres são idiotas, não sabem fazer outra coisa a não ser gritar, por quê? Está com medo? Não precisa ter medo, não vou fazer mal, sou até paciencioso, não sou? Arisco até dizer que sou muito carinhoso. Sou sim. Vocês mulheres é que não contribuem, então preciso usar um pouco da minha habilidade de sedutor. Sou gostoso, não acha? Ah! Não sabe. É claro, dormiu o tempo todo, acho que me descuidei nas gotas. Ah, vou lhe contar um segredo. De toda a Elena, você é a que mais gostei? É verdade. Por isso vou deixar você viver. É não vou matá-la. Sou caridoso também, não sabia? As outras eu matei, precisei matá-las. Não me obedeceram. Se me obedecer deixo você viver... Porém.... Há sempre um, porém nas histórias, já reparou? Ta vendo aquelas duas espingardas apontadas para nos dois? Então, um delas esta carregada. Não sei qual é, portanto, quando abrirem a porta as duas vão disparar, mas só uma contém bala, certo? Vou sentar-me ao teu lado, uma espingarda é para mim e a outra é para você. Correto? Elas estão por um mecanismo meio que complicado para explicar, ligado à porta, quando ela for aberta, acionara o gatilho das duas, simultaneamente, mas apenas uma irá disparar a bala que certeira, se destinará a mim ou a você. Achou que iria se safar assim numa boa é? Não, nada disso.

 ...talvez um dia / por descuido ou fantasia. Puxa! Gostava mesmo dessa música. Sabe a Elena primeira, a que me passou para traz, vivia me dizendo. Sabe o que ela me dizia: você é um cara chato, sabia, não sabe fazer amor, você não tem pênis... É você não sabe fazer amor. Ela me disse. Reparou como é feio: fazer amor, não acha? Em inglês é mais bonito: make love, não é mais bonito. Making Love, fazendo amor. Porra devia ter nascido inglês. Mas não fui nascer nessa merda aqui então caço as minhas Elenas com as quais gosto de brincar. .  Você é a única com quem brinquei mais. Não acha que inglês é mais bonito que português? Puxa! Eu acho. Porra! Mulher pare de chorar, dessa maneira me deixa nervoso e nervoso não sei o que faço, entende? Dê-me um beijo, não quer? Problema o seu, é uma oportunidade de ficar uns instantes sem a mordaça.          

Já está na hora de fazer os preparativos. A polícia logo estará arrombando a porta. Caralho fui cuidadoso o tempo todo, e como me descobriram. Como? Tinha noção que menos dia ou mais dia essa minha brincadeira acabaria sendo descoberta. Puta que pariu só que poderia ser mais pra frente e não agora. Fazer o que. Nunca podemos ter sempre o que queremos, não é mesmo? Chega de falatório, vamos nos preparar. Vou colocar você mais para cá, bem de frente aquela espingarda. Vou aplicar um sedativo em você e depois em mim, assim quando as espingardas forem disparadas morremos sem saber e, o que é melhor, sem dor. Pronto, agora fique quieta que o remédio vai fazer efeito. Isso durma querida, durma, beijo-te pela última vez, meu amor. Puxa! Poderíamos até casar... Você não pode ver, mas estou chorando...  Vamos seu molenga, pare com essa baboseira e se prepare. Assim, sento nessa cadeira perto de você, Elena e, o mesmo sedativo que te apliquei aplico em mim. Pronto, agora é esperar... o... reme...dio ... fazer... efeitooooooooooooo....

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