Ao apertar o botão ao lado da palavra chocolate, e, logo depois ouvir a máquina
pondo sua engrenagem em funcionamento, teve uma ligeira insatisfação que, lhe
pareceu, fora de propósito. Retirou o copo assim que o aviso sonoro anunciou
que o chocolate estava pronto. Mexendo com a paleta própria para isso, se
dirigiu a sua mesa de trabalho.
Precisava criar uma personagem. Uma personagem
forte, decidida e colocá-la numa história que prendesse a atenção de todos.
Talvez, um sujeito sabendo que tem pouco tempo de vida resolve fazer algo
extravagante, inusitado, matar por exemplo. Pode parecer que estivesse imitando
Patricia Highsmith. Sim, até poderia, mas a sua personagem não tem a
característica de Jonathan, personagem de O Jogo de Ripley. Enquanto Jonathan
não sabe o que lhe acontecerá, coisa que o leitor ao progredir na leitura vai
imaginando, o personagem dele sabe o que lhe acontecerá. Sabe que deve por em
prática o plano bolado. Apenas precisaria colocar um toque de Albert Camus ou,
talvez mais superficial, tipo Stephen King.
E ao mencionar a si próprio refletido no espelho, um arrepio percorreu o corpo
dando-lhe mórbida satisfação. Só precisara definir a vitima. Um
desconhecido? Não, não teria prazer nenhum. Prefere uma pessoa conhecida. Uma
pessoa chegada a ele, uma pessoa... Não sei, gritou abafando o grito na
garganta. Velho? Seria fácil demais. Tem que ser mais jovens, aliás, velhos não
transam como os jovens, disse sorrindo ao lembrar-se de duas pessoas idosas
beijando-se despudoradamente. Não soube explicar, mas a cena revirou o
estômago. Tudo bem continuou pensando, tudo bem, eles também tem desejo,
necessitam de sexo como qualquer outra pessoa. Não, velho, pessoas idosas não
tem nenhum prazer. Não oferecem resistência suficiente. É preciso um jovem,
forte, que ofereça resistência, que desse prazer em concretizar o ato. Todo ato
deve ser seguido de prazer. Pois concretizar um ato sem prazer, é como beijar
mulher feia, disse ao fechar a porta do guarda-roupa.
Estevam, nome provisório, estava com os dias contados, dissera o médico.
Contados em anos, dois anos, fora categórico o diagnostico, se por sorte ou por
uma advertência milagrosa, coisa que era impossível de acontecer, talvez
chegasse a quatro ou cinco anos, mais que isso difícil. Claro, como todos os
seres, abstrato ou não Estevam entrou em pânico, em estado de choque por vários
dias, como um autômato andava de um lado para outro não se importando com nada.
Assim ficaria se não tivesse acontecido uma reviravolta em seus pensamentos.
Foi, vamos dizer algo despertou dentro dele dizendo que poderia e, o que era
melhor, deveria fazer o que entendesse. Sempre foi um cara além do seu tempo,
tendo passado por diversas e esdrúxulas experiências, começou a matutar o que
ainda não fez e o que satisfaria o seu eu faminto.
Alinhavou numa ordem morbidamente servil, tudo o que até agora fizera.
Cauterizou as partes negativas, detalhou as partes positivas e, tirou das
experiências o sumo que pudesse fazer da insanidade a linha do seu progresso.
Criou um minucioso roteiro para evitar os imprevistos sem cair nas mesmices do
dia-a-dia. Depois de pronto, passou a estudar a vitima. O mais dificultoso foi
à escolha, o que lhe tomou mais tempo. Tudo porque não conseguia definir as
características de cada uma, mesmo porque sua visão era uma visão
estereotipada, isto porque, não tinha uma intimidade que pudesse ser constante.
Estevam não era de muito amigos e, os que tinham não os consideravam como
realmente deveria.
Portanto, minuciosamente se preparou como o
caçador se prepara para caçar. Tendo a caça escolhida se colocou em campo
cortejando, estudando os modos, as atitudes, os caminhos até que sentiu a caça
pronta para ser abatida. E nesse dia, num golpe suave, mas certeiro abateu a
caça e levou-a ao local escolhido. Tudo dentro do planejado, enquanto estava
adormecida, curiosamente passou a vasculhar milímetro por milímetro as partes
externas do animal. Correu a língua umedecida pelas reentrâncias saboreando a
pele salgada e doce. Perpassou a mão calejada pela convexidade dos pelos
aquecidos farejando o líquido da vida. Lentamente, percebeu o despertar da
caça, o efeito do éter estava terminando, assim sendo não deixou que gritasse
proporcionando um vai e vem brutal e ofegante. Ao mesmo tempo enlaçou o pescoço
doce e gostoso com um fio de nylon, o qual ia apertando ao ritmo das estocadas.
Num frenesi, chegou ao orgasmo no instante em que a vitima soltou o último
suspiro.
Dias depois a policia encontrou um corpo em
decomposição boiando no rio que passava nos arrabaldes da cidade. Dado como
indigente assim foi enterrado.
Largou o jornal em cima da mesa no centro da sala. Pegou o copo de uísque.
Abriu a janela e o barulho do dia irrompeu o ambiente adentro. Como pode essas
coisas acontecer? Acreditava que isso só acontecia em romances, livros, filmes
não na vida real. Mas lá estava estampado no jornal a noticia do assassinato.
Apenas a descrição da moça era diferente, o resto é tudo igual, até o modo como
detalhara no conto. Outra coisa. O jornal que ele vendeu a história e que foi
publicado o conto, não noticiava o assassinato, só os outros jornais. Será que
tinha o dom da premonição? Duvidava. Voltou para a poltrona assustado com o que
pensava. Alguém estava escrevendo sobre ele, alguém estava manejando seus
gestos, seus atos como se ele fosse uma marionete, assim como ele escrevia
sobre Estevam! Bom, engoliu o uísque de um gole só. Encheu novamente o copo e
sentou-se em frente ao micro.
Estevam estava excitado. Não podia negar. Todo o trabalho que tivera para
enredar a caça, fora de uma capacidade excitante. Via que não ficaria muito
tempo sem cometer outro assassinato. Notava por baixo da pele, o fogo queimar
em ardência pelo desejo a saciar. Corria novamente em sentir o impulso
dominando-o. Ouvir a vibração do medo nos olhos doloridos da vitima. Escutar as
lamentações doces e suaves percorrendo os labirintos do ouvido. Captar as veias
pulsando sobre a pele num excitamento incontrolável.
Quando o veredito médico foi pronunciado, não entrou em desespero, caiu numa
passividade gritante onde não sabia o que lhe poderia acontecer. Foi quando, num
estalo, já que de uma hora para outra iria morrer, descobriu que podia fazer
algo que nunca fizera. Depois de muito matutar, depois de colocar todas as
coisas que já fizera que denominasse como experiências, em estudo, chegou à
conclusão que nunca praticou um assassinato. A princípio se horrorizou com a ideia.
No entanto, quanto mais pensava, mais fortalecia a vontade em concretizar o
ato. E um dia, inconsciente, viu sobre a mesa o plano escrito em detalhes,
apontando as coordenadas, os riscos, e as vantagens. Claro, surpreendeu-se. Não
lembrava ter escrito todo aquele amontoado de anotações e direções. Dos seus
lábios contraídos surgiu um sorriso levianamente cruel.
Caiu em si. Era aquilo mesmo que gostaria de
fazer. Era aquilo a última coisa que faria na face da terra. Matar! Que gosto
há em matar? Que sabor deveria ser ao ver alguém morrendo diante dos seus
olhos. Estevam não sabia. Precisava colocar o plano em prática para saber. E
não pensou duas vezes. Esboçado o plano, plano executado.
Olhou para o jornal dobrado em cima da mesa no
centro da sala. Em letras de caixa alta, gritava no silencio das palavras:
ENCONTRADO UM CORPO FEMININO ASSASSINADO VIOLENTAMENTE. Ao ler aquilo,
corroborou todo poder orgástico de sentir-se um deus.
Qual o objetivo da vida? Onde lera isso? Procurou nos escuros recantos e, sem
querer, lembrou-se de uma brincadeira que a mãe fazia. Parada no ponto do
ônibus, para amenizar a impaciência da espera, ela dizia:
- Vamos ver se você descobre onde está escrito
a palavra Bolo?
E sendo ele criança, estava aprendendo as primeiras letras, portanto começando
a ler, procurava ansiosa a palavra por ela escolhida. Às vezes levava tempo
para encontrar, ou encontrava fácil, ora estava num letreiro, numa placa
indicativa, na parede de algum prédio, ou mesmo em algum veículo parado. Com
isso a espera tornava-se amena.
Foi então que, com um gesto de mão alisando os
cabelos rebeldes, lembrou onde tinha lido. Ao pegar o pote de ração, seus olhos
cinza escuro deram com o panfleto jogado displicentemente em cima da
cristaleira da cozinha.
No mesmo instante em que leio, jogou a pergunta
para dentro dele, filtrando de uma maneira diferente, reformulando: Qual o
objetivo da tua vida? Aterrorizado, o olhar perdido nas letras, permaneceu
aterrado no meio da cozinha sem ter a resposta certa ou conveniente. E, assim
mesmo, tornou a reformular a pergunta: Qual o objetivo da vida? Puta que pariu,
disse mentalmente, não nunca tinha pensado na vida, se ela tinha ou não um
objetivo. Jogou-se na cadeira que rangeu sob seu peso. Colocou mais uma dose
generosa de uísque no copo. O objetivo da vida! Que coisa expectante essa. E a
vida tem algum objetivo? Primeiramente antes dessa há outra pergunta mais
importante. O que é a vida? É, isso mesmo. O que é a vida? Porra, pergunta
difícil deveria ser proibida. A vida, ora a vida é a vida, nada mais. A vida é
tudo que vemos e sentimos. É tudo que nos faz sentir que somos importantes a
ela. A vida não cabe numa resposta, mesmo que a resposta seja tão imensa quanto
à própria vida. É um troço incomensurável que não cabe numa frase, numa
sentença e muito menos numa teoria bem explanada. A vida é um tudo e ao mesmo
tempo é o nada que trazemos dentro de nós. Cada um tem e vê a vida como lhe é
importante ser e sentir.
Despejou as últimas gotas de uísque no copo,
jogou a garrafa no lixo, prestando atenção no som oco ao bater do vidro na
lata, já pensando em comprar outra. Bem, a vida não é só acordar, levantar,
tomar banho ir para o trabalho, discutir futebol e, muito menos é, ficar em
baladas, beber, paquerar mulheres fáceis e descartáveis num frenesi alucinante.
Não era nada disso. A vida era algo, além disso, algo...! É um romper as
células compreensíveis, é beber a visão diurna em que deparava todas às vezes
ao abrir os olhos. É satisfazer desejos boiando no limo do preconceito moral. É
alimentar a alma livrando-se da razão atrofiada pela monotonia da sobrevivência
E ele? Tinha direito a desejar o seu objetivo? Creio que sim, claro que sim,
principalmente nas minhas condições, o direito da vida é todo meu, isto é,
posso fazer dela o que eu quiser. Até matar? E por que não? Já que vou morrer
mesmo? Tem certeza? Olha os exames médicos indicam que o máximo que posso viver
é um ou dois anos. E pergunto: porque tenho apenas de viver esses dois anos,
isto se os exames médicos não estiverem errados, certo?
Que certo que nada... Porra!
Estevam não sabia por que se impacientava.
Quando se sentia assim, é que alguma coisa lhe aconteceria. Andando
despreocupado, não pensava propriamente em nada. Vazia a mente, flanava
sentindo os pés em longas passadas como se estivesse pisando em flocos de
nuvens. Suas passadas eram frias, não calculadas, sem o ardoroso esbravejar do
calcanhar batendo nas pastilhas da calçada.
Cronometrava o tempo de uma passada a outra, o
tempo em que o calcanhar esquerdo levava para bater na calçada enquanto o
calcanhar direito se elevava na espera da sua vez. Assim distraído, nessa
concupiscência quase matemática, não reparou que em sentido contrário surgiu
uma loira que, por motivos desconhecidos, trombou com ele. Foi um encontrão
repentino curto, mas que o abalou por não estar à espera dele. Seus ombros,
dele o esquerdo e o dela o direito, se chocaram a ponto de fazer com que
inconsciente do ato, desse um passo a traz. Despertado do devaneio, movimentou
os lábios para expressar uma desculpa, mas se retraiu magoado ao ver que a
loira mal prestou atenção nele.
Foi como um alerta psíquico. A princípio pequeno, em seguida, aumentou de
intensidade. Pequenas pontadas prolongaram-se cada vez mais. Rilhou os dentes,
quase esbravejou filha da puta não pede desculpas não? Seguiu com o olhar
lúdico a figura esbelta rebolando desejo entre a multidão. Gritou entre dentes
um palavrão seguido de isso não vai ficar assim. Girou o corpo, cravejou os
olhos na blusa vermelha estampada. Como autômato passou a segui-la.
Não sabia por que seguia a loira, quer dizer, saber sabia, não nitidamente.
Sabia que tinha ou precisava aplicar um corretivo. Seus modos denunciavam ser
ela desprovida de qualquer tipo de compaixão. E como detestava pessoas sem
compaixão! Chegava a ter pena, chegava a sentir na pele a dor que ela
provocava. Por isso a seguia. Sim era por isso mesmo.
Viu o caminho que ela fazia, onde morava, e
chegou ao dia-a-dia ter total conhecimento do seu mais íntimo movimento. Com
isso foi fácil capturá-la como se captura uma borboleta. Pensou radiante ao
vê-la deitada, frágil no banco traseiro do carro. Mais uma borboleta para minha
coleção. Ah! Pena que não sou colecionador, não é? Sorriu satisfeito.
...talvez um dia / por descuido ou fantasia /
helena, helena, helena, como gostava dessa música! Vivia cantando: helena,
helena... Mas hoje não gosto mais, sabe por quê? Vulgaridade sabe o que isso,
Elena tornou-se vulgar, não acho que você sabe, não é, vulgaridade é isso o que
se tornou Elena, tudo culpa da novela, mas o nosso problema não é esse certo?
Sabe por quê? Por que estou feliz, é feliz, ah, não sabe ou não quer dizer, ah!
Desculpe, não posso deixar você sem a mordaça, vocês mulheres são idiotas, não
sabem fazer outra coisa a não ser gritar, por quê? Está com medo? Não precisa
ter medo, não vou fazer mal, sou até paciencioso, não sou? Arisco até dizer que
sou muito carinhoso. Sou sim. Vocês mulheres é que não contribuem, então
preciso usar um pouco da minha habilidade de sedutor. Sou gostoso, não acha?
Ah! Não sabe. É claro, dormiu o tempo todo, acho que me descuidei nas gotas.
Ah, vou lhe contar um segredo. De toda a Elena, você é a que mais gostei? É
verdade. Por isso vou deixar você viver. É não vou matá-la. Sou caridoso
também, não sabia? As outras eu matei, precisei matá-las. Não me obedeceram. Se
me obedecer deixo você viver... Porém.... Há sempre um, porém nas histórias, já
reparou? Ta vendo aquelas duas espingardas apontadas para nos dois? Então, um
delas esta carregada. Não sei qual é, portanto, quando abrirem a porta as duas
vão disparar, mas só uma contém bala, certo? Vou sentar-me ao teu lado, uma
espingarda é para mim e a outra é para você. Correto? Elas estão por um
mecanismo meio que complicado para explicar, ligado à porta, quando ela for
aberta, acionara o gatilho das duas, simultaneamente, mas apenas uma irá
disparar a bala que certeira, se destinará a mim ou a você. Achou que iria se
safar assim numa boa é? Não, nada disso.
...talvez um dia / por descuido ou fantasia. Puxa! Gostava mesmo dessa
música. Sabe a Elena primeira, a que me passou para traz, vivia me dizendo.
Sabe o que ela me dizia: você é um cara chato, sabia, não sabe fazer amor, você
não tem pênis... É você não sabe fazer amor. Ela me disse. Reparou como é feio:
fazer amor, não acha? Em inglês é mais bonito: make love, não é mais bonito.
Making Love, fazendo amor. Porra devia ter nascido inglês. Mas não fui nascer
nessa merda aqui então caço as minhas Elenas com as quais gosto de brincar. .
Você é a única com quem brinquei mais. Não acha que inglês é mais bonito
que português? Puxa! Eu acho. Porra! Mulher pare de chorar, dessa maneira me
deixa nervoso e nervoso não sei o que faço, entende? Dê-me um beijo, não quer?
Problema o seu, é uma oportunidade de ficar uns instantes sem a mordaça.
Já está na hora de fazer os preparativos. A polícia logo estará arrombando a porta. Caralho fui cuidadoso o tempo todo, e como me descobriram. Como? Tinha noção que menos dia ou mais dia essa minha brincadeira acabaria sendo descoberta. Puta que pariu só que poderia ser mais pra frente e não agora. Fazer o que. Nunca podemos ter sempre o que queremos, não é mesmo? Chega de falatório, vamos nos preparar. Vou colocar você mais para cá, bem de frente aquela espingarda. Vou aplicar um sedativo em você e depois em mim, assim quando as espingardas forem disparadas morremos sem saber e, o que é melhor, sem dor. Pronto, agora fique quieta que o remédio vai fazer efeito. Isso durma querida, durma, beijo-te pela última vez, meu amor. Puxa! Poderíamos até casar... Você não pode ver, mas estou chorando... Vamos seu molenga, pare com essa baboseira e se prepare. Assim, sento nessa cadeira perto de você, Elena e, o mesmo sedativo que te apliquei aplico em mim. Pronto, agora é esperar... o... reme...dio ... fazer... efeitooooooooooooo....
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