segunda-feira, 18 de abril de 2022

O baladeiro.


Sonolento. Com gosto amargo na boca. Não é ressaca, pensou enquanto seus passos meios descompassados pisavam a calçada lisa e plana ao virar a esquina da Augusta com a Paulista. Cinco e quarenta minutos marcava o relógio no centro da ilha que dividia a rua, que naquela hora começava a aumentar o trânsito. Um céu de tonalidade cinzenta, sem deixar perceber se choveria ou se o sol despontaria, fez com que levasse a mão aos olhos numa tentativa de eliminar um pouco a ardência.

Dezoito graus registrava o mesmo relógio. Um pequeno vento gelado arrepiou a pele. Precisava beber algo, a garganta seca reclamava. Olhou para a esquerda, nada aberto. Olhou para a direita, também nada aberto. Lembrou. Há um bar na Consolação que fica aberto vinte e quatro horas. Dirigiu-se para lá. Nisso quase trombou com uma banca de camelô. Pediu desculpa para o olhar enviesado da mulher sem se preocupar com ela. Não viu a careta que ela lhe fez pelas costas.

A vida é uma sucessiva  passadas que vamos imprimindo na página da alma, disse a meia voz. Sorriu. Engraçado, filosofar na madrugada de segunda, quer dizer, madrugada há muito tempo que deixou de ser, já está amanhecendo. Sentia a cabeça latejar, sedento, precisava de uma bebida, aliviar o gosto de cabo de martelo amarrando a boca. Atravessou a passagem subterrânea cheirando a urina. Porque não reformam essa passagem e fazem dela uma pequena galeria? Encostados pelas paredes, vários casais se amassavam num despudor proposital. Passou por eles procurando não dar atenção.

Com alegria que respirou o ar razoavelmente agradável ao sair do outro lado da Consolação. Ao entrar no bar, recebeu no rosto o vozerio ensurdecedor misturado com o ar quente do ambiente. Estranhou ver o bar cheio em plena manhã. Com muito custo encontrou um banquinho no balcão. Chamou o garçom:
- Por favor, uma cerveja.

Tinham marcado ás oitos horas. E como é costume do pessoal, estavam atrasados, quase nove horas e, nada deles. E assim que todos chegaram partiram para o que chamaram de: Desfloração do Ricardo, já que ele estava completando a maioridade e, a meia boca maldosamente, diziam ser ele ainda virgem. Para que o festejo ficasse marcante, levaram-no, sem que Ricardo soubesse para uma boate gay. Estavam meios chapados quando entraram na boate que, quinze minutos depois, tinham se dispersado um do outro. Enquanto saboreava o Bloody Mary lentamente, seus olhos passeavam displicentes pelo mar de cabeças que dançavam na pista e outras que iam e vinham como se não tivessem um porto para ancorar. Numa dessas mudanças de olhares, reparou Ricardo conversando com uma loira espetacular e, apontando para o lado dele. Não deu muita importância ao fato. Só começou a se incomodar quando viu que a loira vinha em sua direção. Pensou em fugir, pois na mesma hora desconfiou de sacanagem que os amigos estariam aprontando com ele. Porém, devido à aglomeração perto da sua mesa, ficou impossibilitado de se mexer. Assim sendo, passivamente esperou que a loira se aproximasse. No instante em que ela chegou perto, segurou-a pela mão puxando-a para a pista de dança, não dando tempo para que ela abrisse a boca. Com sua perspicácia arguta, malandro como era, viu que a loira era um travesti. Enquanto dançavam, maquinou como largaria a coitada sozinha no meio do salão. Por sua sorte, um cara todo gracioso se achegou a eles, com um olho grande na loira, o qual ele não se fez de rogado, passou ela para o rapaz. Voltou para a mesa. Instantes depois, saturado de cerveja saia da boate.

- Por favor, cobre a cerveja, disse estendendo uma nota dez para o garçom.
Recebeu o troco e saiu. Precisou fechar um pouco os olhos devido à claridade da manhã de segunda-feira. Por onde andaria a turma, pensou ao descer a escada rolante da estação do metrô Consolação. Bom, amanhã é outro dia, quando encontrar com eles perguntarei, pensou encostando a cabeça no vidro do trem adormecendo logo em seguida.

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