Sonolento. Com gosto amargo na boca. Não é ressaca, pensou enquanto seus passos
meios descompassados pisavam a calçada lisa e plana ao virar a esquina da
Augusta com a Paulista. Cinco e quarenta minutos marcava o relógio no centro da
ilha que dividia a rua, que naquela hora começava a aumentar o trânsito. Um céu
de tonalidade cinzenta, sem deixar perceber se choveria ou se o sol
despontaria, fez com que levasse a mão aos olhos numa tentativa de eliminar um
pouco a ardência.
Dezoito graus registrava o mesmo relógio. Um
pequeno vento gelado arrepiou a pele. Precisava beber algo, a garganta seca
reclamava. Olhou para a esquerda, nada aberto. Olhou para a direita, também
nada aberto. Lembrou. Há um bar na Consolação que fica aberto vinte e quatro
horas. Dirigiu-se para lá. Nisso quase trombou com uma banca de camelô. Pediu
desculpa para o olhar enviesado da mulher sem se preocupar com ela. Não viu a
careta que ela lhe fez pelas costas.
A vida é uma sucessiva passadas que vamos imprimindo na página da
alma, disse a meia voz. Sorriu. Engraçado, filosofar na madrugada de segunda,
quer dizer, madrugada há muito tempo que deixou de ser, já está amanhecendo.
Sentia a cabeça latejar, sedento, precisava de uma bebida, aliviar o gosto de
cabo de martelo amarrando a boca. Atravessou a passagem subterrânea cheirando a
urina. Porque não reformam essa passagem e fazem dela uma pequena galeria?
Encostados pelas paredes, vários casais se amassavam num despudor proposital.
Passou por eles procurando não dar atenção.
Com alegria que respirou o ar razoavelmente
agradável ao sair do outro lado da Consolação. Ao entrar no bar, recebeu no
rosto o vozerio ensurdecedor misturado com o ar quente do ambiente. Estranhou
ver o bar cheio em plena manhã. Com muito custo encontrou um banquinho no
balcão. Chamou o garçom:
- Por favor, uma cerveja.
Tinham marcado ás oitos horas. E como é costume
do pessoal, estavam atrasados, quase nove horas e, nada deles. E assim que
todos chegaram partiram para o que chamaram de: Desfloração do Ricardo, já que
ele estava completando a maioridade e, a meia boca maldosamente, diziam ser ele
ainda virgem. Para que o festejo ficasse marcante, levaram-no, sem que Ricardo
soubesse para uma boate gay. Estavam meios chapados quando entraram na boate
que, quinze minutos depois, tinham se dispersado um do outro. Enquanto
saboreava o Bloody Mary lentamente, seus olhos passeavam displicentes pelo mar
de cabeças que dançavam na pista e outras que iam e vinham como se não tivessem
um porto para ancorar. Numa dessas mudanças de olhares, reparou Ricardo
conversando com uma loira espetacular e, apontando para o lado dele. Não deu
muita importância ao fato. Só começou a se incomodar quando viu que a loira
vinha em sua direção. Pensou em fugir, pois na mesma hora desconfiou de
sacanagem que os amigos estariam aprontando com ele. Porém, devido à
aglomeração perto da sua mesa, ficou impossibilitado de se mexer. Assim sendo,
passivamente esperou que a loira se aproximasse. No instante em que ela chegou
perto, segurou-a pela mão puxando-a para a pista de dança, não dando tempo para
que ela abrisse a boca. Com sua perspicácia arguta, malandro como era, viu que
a loira era um travesti. Enquanto dançavam, maquinou como largaria a coitada
sozinha no meio do salão. Por sua sorte, um cara todo gracioso se achegou a
eles, com um olho grande na loira, o qual ele não se fez de rogado, passou ela
para o rapaz. Voltou para a mesa. Instantes depois, saturado de cerveja saia da
boate.
- Por favor, cobre a cerveja, disse estendendo
uma nota dez para o garçom.
Recebeu o troco e saiu. Precisou fechar um pouco os olhos devido à claridade da
manhã de segunda-feira. Por onde andaria a turma, pensou ao descer a escada
rolante da estação do metrô Consolação. Bom, amanhã é outro dia, quando
encontrar com eles perguntarei, pensou encostando a cabeça no vidro do trem adormecendo
logo em seguida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário