Consultou o relógio. Onze horas. Daqui a pouco almoçaria. Nessa hora o
movimento sempre maior quando os prisioneiros burocráticos deixavam a prisão
por uma hora ou duas horas, para alimentarem a carcaça. Ela, apesar de não ser
uma prisioneira burocrática também estava com fome.
- E Ezequiel que demora droga!
As segundas-feiras tinha que levantar mais cedo
quem chegasse primeiro garantia o lugar para a semana toda, o melhor lugar na
Avenida Paulista, e para ela, o melhor lugar era em frente ao banco. Não sabia
dizer por que, talvez no primeiro dia que viera para a Paulista, conseguira
fazer mais de cem reais. E como Ezequiel trabalha a noite, das dezoito horas as
vinte e quatro horas, ela vinha para a avenida, na parte da manhã e a tarde ele
ficava até umas dezesseis horas. E hoje que parecia que o comercio estava bom,
ele demorava! Que merda!
- Zefa você ouviu dizer que estão querendo
tirar a gente daqui?
- Quem lhe disse isso?
- Corre boato tudo por culpa daquele escritor
besta que vem escrevendo sobre nós?
- É, que sujamos as ruas, atrapalhamos os
pedestres e outras coisas mais.
- Pode deixar um dia ele terá o que merece.
Zefa não gostava muito de falar nessas coisas.
Tinha a sua banca de camelô por que o porcaria do seu homem não ganhava bem,
quer dizer, nunca ganhou bem, até desconfiava que vivesse a suas custas. Se às
vezes trabalhava era apenas para disfarçar. O idiota não parava em emprego
nenhum. Já estava cansado do cara. Olhou novamente o relógio. Meio dia, se
desse uma hora e ele não tiver chegado, guardava as coisa e iria embora, que se
foda tudo.
Distraída atendendo uma mulher que não decidia
se levava a pulseira ou anel, assustou-se quando Ezequiel tocou-lhe o ombro.
- Já disse para não me assustar desse jeito.
- Tudo bem?
- Tudo bem. Vai levar esse?
- Sim vou, quanto é?
- Dez reais.
Assim que a mulher pagou e foi embora, levou os
olhos para dentro do banco e viu uma cena que fizeram seus olhos brilharem mais
ainda. Um rapaz sacava dinheiro, até pode ver o valor das notas, cem reais, no
caixa eletrônico.
- Ezequiel, veja.
- O que mulher?
- Aquele rapaz saindo do banco.
- O que tem ele?
- Sacou dinheiro tudo em nota de cem.
- É?
- É sim.
Ezequiel olhou para os lados, depois para a
mulher que olhava para ele sério e disse:
- Espere aí que já volto, não vai embora.
E como podia ir embora! Impaciente, forçava-se
a não olhar na direção por onde fora Ezequiel. Nervosa, pouca atenção dava aos
fregueses. Depois de um prolongado tempo de angústia, viu Ezequiel se
aproximando.
- E aí?
- Já almoçou?
- Não.
- Então vamos almoçar.
- Mas as bugigangas? Onde deixamos.
- Espere aí.
Dirigiu-se ao rapaz ao lado, com uma banca de
relógios e ósculos pirateados.
- Por favor, eu e minha mulher vamos almoçar rápido, pode dar uma olhada na
nossa banca? Não vamos demorar, e nem precisa vender nada, apenas olhar para
que não a levem.
- Pode ficar sossegado.
- Obrigado.
Ezequiel e Zefa desceram a Rua Augusta
apressados, desviando das pessoas como precisassem chegar logo. No primeiro
restaurante entraram. Assim que estavam acomodados, Ezequiel tirou do bolso e
mostrou para Zefa.
- Nossa! Ezequiel, quanto é isso?
- Contei rapidamente e tem setecentos reais.
- Beleza.
- Vamos comer como reis hoje e a noite cinema,
o que acha?
- Combinado. Mas... Ezequiel, tava pensando....
- Sei o que está pensando.
- Sabe?
- Sei e lhe digo uma coisa, fique de olho no
banco que o resto é comigo.
- Combinado.
Nesse dia Ezequiel e Zefa viveram o dia mais
feliz da vida deles.
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