domingo, 17 de abril de 2022

Camelô.


Consultou o relógio. Onze horas. Daqui a pouco almoçaria. Nessa hora o movimento sempre maior quando os prisioneiros burocráticos deixavam a prisão por uma hora ou duas horas, para alimentarem a carcaça. Ela, apesar de não ser uma prisioneira burocrática também estava com fome.

- E Ezequiel que demora droga!

As segundas-feiras tinha que levantar mais cedo quem chegasse primeiro garantia o lugar para a semana toda, o melhor lugar na Avenida Paulista, e para ela, o melhor lugar era em frente ao banco. Não sabia dizer por que, talvez no primeiro dia que viera para a Paulista, conseguira fazer mais de cem reais. E como Ezequiel trabalha a noite, das dezoito horas as vinte e quatro horas, ela vinha para a avenida, na parte da manhã e a tarde ele ficava até umas dezesseis horas. E hoje que parecia que o comercio estava bom, ele demorava! Que merda!

- Zefa você ouviu dizer que estão querendo tirar a gente daqui?
- Quem lhe disse isso?

- Corre boato tudo por culpa daquele escritor besta que vem escrevendo sobre nós?

- É, que sujamos as ruas, atrapalhamos os pedestres e outras coisas mais.

- Pode deixar um dia ele terá o que merece.

Zefa não gostava muito de falar nessas coisas. Tinha a sua banca de camelô por que o porcaria do seu homem não ganhava bem, quer dizer, nunca ganhou bem, até desconfiava que vivesse a suas custas. Se às vezes trabalhava era apenas para disfarçar. O idiota não parava em emprego nenhum. Já estava cansado do cara. Olhou novamente o relógio. Meio dia, se desse uma hora e ele não tiver chegado, guardava as coisa e iria embora, que se foda tudo.

 Distraída atendendo uma mulher que não decidia se levava a pulseira ou anel, assustou-se quando Ezequiel tocou-lhe o ombro.
- Já disse para não me assustar desse jeito.

- Tudo bem?

- Tudo bem. Vai levar esse?

- Sim vou, quanto é?

- Dez reais.

Assim que a mulher pagou e foi embora, levou os olhos para dentro do banco e viu uma cena que fizeram seus olhos brilharem mais ainda. Um rapaz sacava dinheiro, até pode ver o valor das notas, cem reais, no caixa eletrônico.

- Ezequiel, veja.

- O que mulher?

- Aquele rapaz saindo do banco.

- O que tem ele?

- Sacou dinheiro tudo em nota de cem.

- É?

- É sim.

Ezequiel olhou para os lados, depois para a mulher que olhava para ele sério e disse:

- Espere aí que já volto, não vai embora.

E como podia ir embora! Impaciente, forçava-se a não olhar na direção por onde fora Ezequiel. Nervosa, pouca atenção dava aos fregueses. Depois de um prolongado tempo de angústia, viu Ezequiel se aproximando.

- E aí?

- Já almoçou?

- Não.

- Então vamos almoçar.

- Mas as bugigangas? Onde deixamos.

- Espere aí.

Dirigiu-se ao rapaz ao lado, com uma banca de relógios e ósculos pirateados.
- Por favor, eu e minha mulher vamos almoçar rápido, pode dar uma olhada na nossa banca? Não vamos demorar, e nem precisa vender nada, apenas olhar para que não a levem.

- Pode ficar sossegado.

- Obrigado.

Ezequiel e Zefa desceram a Rua Augusta apressados, desviando das pessoas como precisassem chegar logo. No primeiro restaurante entraram. Assim que estavam acomodados, Ezequiel tirou do bolso e mostrou para Zefa.

- Nossa! Ezequiel, quanto é isso?

- Contei rapidamente e tem setecentos reais.

- Beleza.

- Vamos comer como reis hoje e a noite cinema, o que acha?

- Combinado. Mas... Ezequiel, tava pensando....

- Sei o que está pensando.

- Sabe?

- Sei e lhe digo uma coisa, fique de olho no banco que o resto é comigo.
- Combinado.

Nesse dia Ezequiel e Zefa viveram o dia mais feliz da vida deles.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Vazia.

                                            Vazia. A minha mente está vazia.Vazia.Vazia.Tanta coisa as quais posso escrever e nada me vem à ...