Lena pegou das mãos da vendedora a sacola. Satisfeita disse:
- Obrigada, para a vendedora que retribui num sorriso pétreo de tédio.
- De nada, volte sempre.
Lena conhecia bem esses sorrisos pétreos,
acostumada não dava importância, mesmo assim desejava sempre:
- Bom trabalho.
Puxando a porta de vidro fumê, recebeu no rosto
o sol das quatorze horas. Tirou da bolsa o Ray-ban enganchando-o sob o nariz
retilíneo e perfeito. Antes de levar a perna direita para o primeiro passo, em
frente à porta da loja, olhou para os lados. Primeiramente para a esquerda,
depois para a direita. Dava sinais de indecisão. Na verdade não sabia para que
lado se dirigir. Sabia que tinha de andar, sair dali, caminhar, ir para outro
lugar. Para onde deveria ir, perguntou no sossego dos olhos. Talvez, ir em
frente atravessar a rua, pegar o outro lado da calçada. Será que daquele lado
há alguma coisa interessante? Para responder teria, logicamente, de atravessar
a rua. Foi o que fez no semáforo que naquele instante, parecendo até magia,
abriu.
Assim que a sola do sapato de couro – ninguém
saiba, imitação – imprimiu o peso todo do corpo na calçada de pastilhas
irregulares, sem ter a noção de quanto era perdidamente consumista. Alguém já
lhe dissera o que não acreditou. Não tinha nenhuma compulsão por nada. Vê se
pode, uma mulher como ela, compulsiva por comprar simplesmente por comprar.
- Você é uma sacoleira, dissera um colega de
serviço.
Retirando de baixo da mesa umas quatro sacolas,
cada uma com emblemas de lojas diferentes, soltando um riso sem graça, saiu da
sala sem saber o que responder.
Como poderia explicar? Não tem como! A paixão
por sacolas, papel de embrulho, etiquetas, o sair e entrar em lojas, o
pechinchar, regatear, falar com vendedoras, algumas sem conhecimentos específico
do que estava vendendo, o ficar à espera na loja, era algo assim, quer dizer,
para ela não havia definição. Comparam-na com cleptomaníaco. Talvez. No entanto
não ligava nada para isso.
Consultou o relógio. Tinha mais de duas horas. Nisso em frente à vitrine de
calçados, seus olhos fixaram-se num gracioso e bonito calçado. Não era
propriamente um calçado. Era uma sandália de couro brilhante cinza. As tiras
cruzavam o peito do pé. O salto de uns três ou quatro centímetros atiçava os
dedos na ânsia de se enfiarem por entre as tiras. Olhou bem, uhm sussurrou
entre dentes. Não resistiu. Entrou na loja. Vinte minutos depois, saia com mais
três sacolas.
Consultou o relógio acima da porta do banheiro.
Faltavam cinco minutos para o expediente terminar. Seis sacolas estavam em baixo
da mesa esperando-a. O problema não era aguentar as sacolas penduradas no braço
ou na mão. O problema era enfrentar o metrô com os empurra e empurra,
cotoveladas, enconchadas e tudo mais. Às vezes até conseguia tirar umas
lasquinhas das enconchadas, mas na maioria ninguém estava aí para ninguém.
E o outro problema, talvez maior que todos,
explicar ao marido essa sua ânsia compulsiva de comprar por comprar. Mas quem
disse que ela comprava por comprar? Imagina, o que ela comprava é porque
precisava, tinha necessidade. É como ter prazer intenso a ponto de se sentir
sexualmente completa e satisfeita. E como poderia explicar isso ao marido?
Assim que entrou no apartamento, jogou as
sacolas no sofá. Cansada, dirigiu-se ao quarto. Com as pontas dos dedos, tirou
o sapato jogando-os longe. Abriu a porta do guarda roupa. Ao mesmo tempo levou
um susto, aterrorizou-se ao ver-se refletida no espelho, quer dizer, não com
ela, mas com o que aparecia atrás dela. Lentamente, virou-se e o que viu foi
como um grito rasgando à tarde que dava passagem para a noite.
O quarto, as paredes, os móveis, as cortinas, o assoalho, até o marido que no meio do quarto a observava aterrorizado, estava virando sacolas e mais sacolas de diversas lojas. Quando percebeu, foi engolida pelas grandes e pequenas sacolas nada mais restando daquilo que ela fora.
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