Prostituta.
Rita olhava para Ricardo que, em pé no meio do quarto se vestia num ritual meio
que complicado. Com as costas apoiada na guarda da cama, nua, mascando
chiclete, a morena sorria um sorriso enigmático que ora parecia despudorado, e
ora ausente de nenhum pudor. Ricardo não deixou de notar o sorriso da prostitua,
por isso perguntou:
- Qual o motivo do teu sorriso?
- Nada não, estava aqui pensando apenas.
E prostituta pensa, disse mentalmente e, em voz
alta.
- E posso saber no que? Espero que não esteja
analisando meu desempenho.
- Não nada disso, aliás, você superou as minhas expectativas positivamente.
- Ainda bem.
- Você não é capaz de adivinhar no que estou
pensando.
- Se eu fosse adivinho uma coisa lhe digo: era
bem provável que não estivesse aqui.
- Será? Vocês homens mentem mais que mulher.
- Não vamos discutir isso. Diga-me no que está
pensando.
- Em cotas.
- Cotas? Como assim?
- Já imaginou se nós prostitutas tivéssemos que
atender no regime de cotas?
- E o que você entende de cotas.
- Tenho certa formação se você quer saber. Leio
bastante Contigo, Capricho, Caras, vejo televisão, novela, Jornal Nacional, o
Ratinho, Datena, Gugu, Raul Gil, Ana Maria Braga, e, portanto sei o que falo.
- É mesmo! Explique-me então como é esse negócio de cotas.
- Ué, simples. Não tem cotas para tudo, quer
dizer, para tudo não, cotas para negros. Na faculdade, no emprego, no
restaurante, e não sei mais o que?
- Sim.
- Então, pensou. Sou negra, então vamos dizer
que eu atenderia só negro, portanto devo ter uma cota para brancos, como você
branguelo.
- Interessante.
- Não que eu seja preconceituosa, nada disso.
Apesar de que sei que algumas das minhas companheiras atende só um determinado
freguês. Se ela é negra e se for possível só aceitará negro, entende. E tem
umas branquelas se pudesse atenderia só brancos.
- Sei. E você?
- O que tenho eu?
- Você atende só negro ou só branco?
- O que você acha? Apesar de que vou lhe dizer,
tem negro pior que branco, nem imagina. Então, o que me diz disso tudo?
- O que dizer? Ora, acho que você está me aceitando para complementar tua cota.
- Poderia dizer que sim. Mas olhe, não sou
assim não.
- Entendo. Pelo que sei vocês, desculpe, sem
ofender, prostituas não são empresas e muito menos faculdade.
- Tudo bem, não somos empresas e nem faculdade,
mas vamos dizer que houvesse algo semelhante.
- De onde você tirou essa ideia absurda?
- Ah! Minha irmã outro dia estava falando sobre
isso lá em casa.
- E?
- Ela trabalha numa firma conceituada, famosa,
é uma das primeiras no Brasil.
- Sim?
- Então, ela comentava que, há tempos atrás era
difícil ver um negro, funcionário negro na firma e, que hoje, tem bastante. Só
na seção dela tem uns seis.
- E o que levou você a pensar em cotas.
- Ela desconfia que eles, os manda chuva, estão
cumprindo esse negocio de cotas, isto é, mesmo que o cara seja ou não
habilitado para a função em que foi contratado, ele está lá só pra cumprir essa
lei de cotas. Entende?
- Bom tudo é possível. Deve lembrar se é que
você consiga lembrar-se de alguma coisa...
- O que você está pensando que eu seja? Uma
débil mental é?
- Não, nada disso, esquece. É que eu acho esse
negócio de cotas delicado para ser discutindo num quarto de hotel, não acha?
- Você que acha.
- Não sei se vai me entender. As cotas foram
criadas para pagar as maldades feitas no passado pelos brancos. Que a meu ver,
não deveria ser para isso. Se meus antepassados praticaram crimes não serei eu
que vou pagar por eles, entende? Aquela época foi uma situação política social
daquela época, hoje a situação é completamente diferente. E além do mais, isso
só faz com que o preconceito aumente mais ainda, principalmente dos negros
contra os brancos.
- Talvez.
- Mais uma coisa. A meu ver, os negros ou
qualquer outro segmento que seja não deve se impor se imponha sim, mas não
explicitamente a ponto de incomodar, claro, devem incomodar, mas não dessa
maneira, há outras maneiras. Entende?
- Mais ou menos.
- Aqui está o teu pagamento. Preciso ir. Até
mais, beleza, nos veremos outro dia.
- Até mais.
Rita entrou no banheiro batendo a porta
enquanto o letreiro lentamente surgiu até ficar legível: THE END ou FINI ou
ainda FIM.
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