sábado, 14 de maio de 2022

Diário da sexta-feira.


Enfiou a mão no bolso interno do paletó. Onde estava o bilhete único. Colocara aqui, tinha certeza. Ah! Aqui está. Depois abriu a mochila, puxando o zíper da direita para a esquerda. Tirou a carteira de couro marrom, presa com um elástico. Puxou o bilhete único do bolso, tirou o elástico e abriu a carteira. Numa das divisões enfiou o bilhete ali. Em seguida, tornou a tirar do bolso interno do paletó outro bilhete. Esse era reserva, disse para si mesmo mentalmente. Também enfiou entre as divisões da carteira. Logo depois foi a vez do RG, a carteira de identidade. Cauteloso abriu novamente a carteira, o que fez com ela voltada contra o corpo, numa tentativa de esconder o seu interior de olhares alheios. Colocou o documento junto com as poucas notas. Andava sempre com valor pequeno, tinha medo de andar com muito dinheiro, é preciso ser cuidadoso. Feito todos esses movimentos premeditados, passou o elástico na carteira e guardou na mochila fechando o zíper da esquerda para a direita. Cruzou os braços em volta da mochila prendendo-a junto ao corpo.

Pensativo passou a mão nos poucos cabelos revelando uma calvície bem adiantada. Fora um cara supervaidoso com o cabelo. Suspirou como se engolisse o momento que já não podia ter nas mãos. Sorriu um sorriso de leve apaziguando assim como o pensamento. Na verdade, vinha pensando nas palavras do médico. Apesar de que o médico lhe dissera que teria ainda muitos anos pela frente. E dava para se acreditar em médico?! Mesmo assim, pensou. Ah! Mas também com sua idade o melhor, talvez, seria fazer a última viagem. O que o deixava mais preocupado, é que o médico pediu para falar com um parente próximo, filha, filho, esposa... Esposa! Por onde andará ela? Sua esposa. Há quanto tempo fora embora o deixando sozinho com os filhos.

João aos dezoito anos se envolvera com viciados e acabara assassinado na calçada da Avenida Brigadeiro com um tiro bem no meio da testa. A polícia dissera que o filho vendia drogas para os homossexuais e travestis na boca do lixo. O pobre coitado foi enterrado como indigente. Ele não tinha dinheiro para pagar o enterro do filho. Também, bem-feito quem mandou se envolver com gente perigosa. Foi o que disse no dia em que soube do sepultamento ao oficial de justiça que fora notificar a ocorrência.
Sua filha! Ah! Joana tinha, ou tem ainda, pois não sabe se ela está viva ou não, as feições da mãe, parecidíssima. Fazia tempo que não tem notícia dela. Ouvira outro dia no bar do Maneco, sem que o percebesse por perto, de que ela estava na boca do lixo vivendo com o cafetão que batia nela todos os dias. Se for verdade não procurou saber. Também não tinha importância, não era mais sua filha. Aos quinze anos se perdera bom ele assim queria pensar que fosse, mas sabia que desde que Joana entrou na adolescência já era uma perdida, o quarteirão todo já tinha andado em seus braços. Aos quinze, grávida de um homem casado, destruiu a vida dele a ponto de o desmiolado assassinar a esposa.

Na verdade, ele era um fraco, isso sim. Sempre fora um fraco. Não teve mão firme para manter Polá, e muito menos para dar uma vida melhor aos filhos. Sentia-se cansado. Não se desesperou quando soube que Polá, a esposa que ele pensava que o amava, fora embora. Não. Aceitou o fato como se fosse à coisa mais natural da vida. Portanto, não tinha como reclamar. E agora, o médico vem lhe dizer que tem ainda muitos anos pela frente. Grande mentiroso, isso é que eles são, todos mentirosos. Quero falar com a tua filha, dissera. Se eu tenho muitos anos ainda pela frente, por que falar com a minha filha? Lógico que ele dirá para ela que ele tem pouco tempo de vida, que seria melhor internar o pai e esquecê-lo.
Bom, isso ela já fez há muito tempo, disse a si mesmo, se aproximando da janela, esqueceu-se de mim ou será que fui eu que a esqueci que quis esquecê-la? Sem esperar uma resposta, voltou para o sofá, ligou a televisão esquecendo que o médico lhe dissera que ainda tem muitos anos pela frente.


ps – este texto partiu da observação, durante o trajeto do metrô da Sé até o Paraíso, de um senhor que fazia os movimentos que tento descrever no início. Eu desci no Paraíso e o senhor continuou a viagem.

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