Ao levantar os olhos da biografia de John Steinback, escrita por Jay Parini,
foi que viu aquele corpo senil como um tronco dobrado pelo vento. Não podia
acreditar, talvez fosse mais correto dizer: não queria acreditar que alguém
ainda precisasse fazer o que aquele homem estava fazendo. Claro, se não tivesse
levantado a cabeça para pegar o lenço de papel com a finalidade de enxugar as
lágrimas ocorridas pelo bocejar, não teria visto tal cena. Em si propriamente
não era a cena que machucava os olhos, e muito menos o que o senhor estava
fazendo, não era o movimento daquele momento, mas o que ele estava manuseando,
vamos e venhamos, com grande dificuldade.
Ao empurrar a plaqueta apagando a luminosidade
branca com letras pretas para dentro do arquivo e, puxando outra, onde estava
escrito no canto superior direito: Arquivo Geral tentou lembrar se já tinha
visto aquela cena alguma vez. Não, não tinha não, o que tinha eram lembranças
vindas através das lembranças dos pais. Eles sim foram e fizeram parte dessa
história da humanidade. Hoje apenas nos compêndios armazenados nas plaquetas
áudio visuais é que encontrava cenas como essa.
Da sua mesa baia ouvia o tec tec irregular e
vagaroso quebrando o silêncio branco. Por quanto tempo o pobre homem martelaria
a antiga máquina não sabia dizer. Martelaria não é bem o termo certo. Dizia-se:
batendo a máquina. Máquina de escrever, quem usava essas máquinas era chamada
de datilógrafos. Seu pai se orgulhava de conseguir bater não sei quantos toques
por minuto. Havia também, um filme bem antigo, no tempo das grandes telonas, uma
cena de um grande comediante da época, Jerry Lewis que datilografa uma máquina
imaginária.
Tudo isso invadiu sua mente ao sentir leve
irritação, não só de ouvir o tec e tec como a posição do corpo dobrado. Por que
não sentava? Talvez o que necessitava era coisa de pequena importância, talvez
apenas uma letra para reforçar ou trocar ou, o que estava mais parecendo, um
bilhete que houvesse precisão em escrever naquela máquina.
O sol da tarde reforçou o brilho metálico da máquina. Precisava tirar ela dali.
Era peça de museu não sabia o porquê colocaram naquele canto ensolarado. Tocou
com a ponta dos dedos na tela no tampo da mesa, puxou uns arquivos para lá e
outro para cá, até achar a tela dos protocolos informativos. Preencheu todos os
campos, e pressionou a palavra enviar no canto superior esquerdo. Num segundo a
tela foi substituída por um rosto que lhe disse: seu protocolo foi enviado com
segurança. Aguarde segundos que atenderemos o seu pedido. Pronto, estava feito.
Não podia deixar a máquina ali. Cinco minutos depois dois homens com roupas
cinza levavam a máquina para o museu da firma.
Voltou sua atenção ao que estava fazendo
sentindo-se orgulhoso por preservar a história dos antepassados, afinal, essa
era a sua obrigação.
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