terça-feira, 10 de maio de 2022

O datilógrafo.

                 



Ao levantar os olhos da biografia de John Steinback, escrita por Jay Parini, foi que viu aquele corpo senil como um tronco dobrado pelo vento. Não podia acreditar, talvez fosse mais correto dizer: não queria acreditar que alguém ainda precisasse fazer o que aquele homem estava fazendo. Claro, se não tivesse levantado a cabeça para pegar o lenço de papel com a finalidade de enxugar as lágrimas ocorridas pelo bocejar, não teria visto tal cena. Em si propriamente não era a cena que machucava os olhos, e muito menos o que o senhor estava fazendo, não era o movimento daquele momento, mas o que ele estava manuseando, vamos e venhamos, com grande dificuldade.

Ao empurrar a plaqueta apagando a luminosidade branca com letras pretas para dentro do arquivo e, puxando outra, onde estava escrito no canto superior direito: Arquivo Geral tentou lembrar se já tinha visto aquela cena alguma vez. Não, não tinha não, o que tinha eram lembranças vindas através das lembranças dos pais. Eles sim foram e fizeram parte dessa história da humanidade. Hoje apenas nos compêndios armazenados nas plaquetas áudio visuais é que encontrava cenas como essa.

Da sua mesa baia ouvia o tec tec irregular e vagaroso quebrando o silêncio branco. Por quanto tempo o pobre homem martelaria a antiga máquina não sabia dizer. Martelaria não é bem o termo certo. Dizia-se: batendo a máquina. Máquina de escrever, quem usava essas máquinas era chamada de datilógrafos. Seu pai se orgulhava de conseguir bater não sei quantos toques por minuto. Havia também, um filme bem antigo, no tempo das grandes telonas, uma cena de um grande comediante da época, Jerry Lewis que datilografa uma máquina imaginária.

Tudo isso invadiu sua mente ao sentir leve irritação, não só de ouvir o tec e tec como a posição do corpo dobrado. Por que não sentava? Talvez o que necessitava era coisa de pequena importância, talvez apenas uma letra para reforçar ou trocar ou, o que estava mais parecendo, um bilhete que houvesse precisão em escrever naquela máquina.
O sol da tarde reforçou o brilho metálico da máquina. Precisava tirar ela dali. Era peça de museu não sabia o porquê colocaram naquele canto ensolarado. Tocou com a ponta dos dedos na tela no tampo da mesa, puxou uns arquivos para lá e outro para cá, até achar a tela dos protocolos informativos. Preencheu todos os campos, e pressionou a palavra enviar no canto superior esquerdo. Num segundo a tela foi substituída por um rosto que lhe disse: seu protocolo foi enviado com segurança. Aguarde segundos que atenderemos o seu pedido. Pronto, estava feito. Não podia deixar a máquina ali. Cinco minutos depois dois homens com roupas cinza levavam a máquina para o museu da firma.

Voltou sua atenção ao que estava fazendo sentindo-se orgulhoso por preservar a história dos antepassados, afinal, essa era a sua obrigação.

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