Entrou no carro. Bateu a porta. Enfiou a chave na ignição e girou. O motor deu
o arranque, engasgou e parou logo em seguida. Olhando para os lados tentou
novamente. Girou a chave. O motor fez o barulho característico por uns segundos
e parou outra vez. Não quis se irritar. Baixou a cabeça sobre o volante, rilhou
os dentes e contou até dez. Assim que terminou a contagem, girou confiante a
chave. O motor roncou forte, decidido e pegou fazendo o veiculo trepidar.
Colocou em primeira, acelerou, as rodas giraram no asfalto. Olhando os espelhos
retrovisores, acendeu o pisca do lado esquerdo, e dobrou a esquina.
De repente, brecou. Os pneus cantaram. Ouviu
alguém xingar. Não deu importância. Engrenou a marcha-ré e embicou o carro.
Voltou de onde saiu. Desligou o carro, fechou a porta ao mesmo tempo em
que o vidro elétrico fechava a janela. Decidido, procurou lembrar o do porque
estava voltando. Talvez tivesse esquecido alguma coisa. Apalpou os bolsos da
calça, do paletó, olhou a carteira, tudo estava ali, não esquecera nada. Não,
não tinha esquecido nada.
Abriu a porta. Ao chegar ao centro da sala ouviu gemidos. Parou. Aguçou os
ouvidos, Distinguiu de onde vinham. Como cão farejador, aprumou os ouvidos.
Percebeu, vinha do fundo do corredor. Do seu quarto? Com o coração aos pulos,
andando levemente, se aproximou da porta. Girou a maçaneta sem fazer barulho.
Lentamente foi abrindo a porta. O seu campo de visão, antes estreito, foi se
alargando até que deparou com a cena toda. Estupefato, não estava acreditando o
que seus olhos viam. Horrorizados chispas de ódio e raiva brilhavam dentro da
órbita. Por vários e longos minutos, sem conseguir se mexer e nem respirar,
ficou apreciando a cena que feria seu coração. A manhã se fez no silêncio
quebrado apenas pelos gemidos que vinham da cama. Parado, não sabia o que fazer
se entrava de uma vez ou dava meia volta e saia ou, se...
Nisso ouviu-se uma voz forte gritando.
- Corta! Cascatinha.
- Pronto senhor Barbosa.
- Que hora é?
- Precisamente seis horas da tarde, senhor.
- Já?
- Sim.
- Por hoje é só. Prepare o cenário para amanhã
logo as seis.
- Sim, senhor Barbosa.
- Continuista?
- Pois não, senhor Barbosa.
- Marcou as cenas onde paramos?
- Está marcado.
- Então deixe tudo certo para amanhã.
- Pode deixar.
E dirigindo-se ao pessoal todo, falou o mais
alto possível.
- Pessoal obrigado por hoje. A cena saiu nota dez, parabéns. Amanhã logo às
seis horas aqui. Não quero ver atraso e muito menos falta. Estamos entendidos?
- Sim senhor, ouviu-se um dizer aqui, outro
ali, e além.
As luzes foram apagadas. Os holofotes escureceram o ambiente. Portas foram
fechadas abafando vozes. Aos poucos o silêncio tomou conta do set. Por fim,
soou a voz do diretor se despedindo dos atores:
- Até amanhã.
- Até amanhã, responderam.
Depois não se ouviu mais nada. Apenas o silêncio passeava pelo ambiente dona de tudo.
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