“O que foi que eu fiz para que você me trate assim...”
Ouvia a voz rouca da cantora tentando imitar a Vanderlea. É, o que foi que eu
fiz, perguntou olhando-se no espelho do banheiro da boate. Os nervos tremiam
descontroladamente. Não queria olhar-se no espelho, no entanto sem se perceber
seus olhos fixavam-se nele. Lavou o rosto seguidamente. Jogou água gelada umas
quatro vezes nos olhos. Não resolveu, continuava com o cérebro embaralhado. O
que foi que eu fui fazer? Perguntava sem obter resposta. Estava imprestável,
percebia, mas precisava continuar, precisava voltar à mesa, precisava
participar do jogo para não ser desmascarado.
Pondo firmeza nas pernas, sentindo os pés no chão sujo de copos e garrafas e
papéis e camisinhas e outras porcarias, saiu do banheiro recebendo no rosto a
balbúrdia do salão. Foi desconcertante sentir a luz que arrebentava em spots,
foi ensurdecedor o som que lhe entrava ouvido adentro o descontrolando indeciso
em que direção tomar. Esbarrando, tropeçando, trombando aqui e ali, conseguiu
chegar até a mesa. Sentou sem olhar para ninguém. Reinava um silencio de vozes
perturbadas por olhares que talvez, fixavam nele.
Talvez, esperavam que ele dissesse algo. Mas o que diria para aqueles cretinos,
isto é, tinha que dizer alguma coisa? Achava que não. Nada fizera de errado.
- Então meus amigos, vamos ficar aqui ou não?
Perguntou esforçando a voz para que não
percebessem o quanto estava embriagado. Merda, o que adianta sair para a balada
e não se embebedar? Tinha que se divertir, não é mesmo? Sim preciso sim, me
embriagar, e daí? Não fazia mal a ninguém, somente a ele. Ou será que esses
merdas estão chateados comigo? Só porque me embriaguei? Antes me embriagar do
que ficar com cara amarrada por qualquer coisa. Veja como estão com cara de
bundas amassadas. Olhos baixos, com medo de olhar um para outro. Ele não tinha
medo, olhava todos com audácia, mostrando não ter medo, com poses de dono da
história, bebendo mais de quatro horas a mesma bebida, to é de saco cheio desse
pessoal, vou puxar o carro.
- Depois dessa acalorada discussão que só eu
ouvi, já que suas bocas permanecem fechadas, vou para o meu porto solidão.
Passem bem.
E dizendo isso, levantou-se de supetão, quase
derrubou a cadeira, e se dirigiu para a saída. Eles que se danassem, não
ficarei aguentando cara feia de ninguém. Recebeu no rosto o ar da madrugada
deixando-o leve, mais sóbrio. Precisava tomar mais um trago, estava com a boca
seca. Entrou no primeiro estabelecimento que viu aberto.
- Por favor, uma cerveja.
- Já estamos fechando, disse o garçom.
- Só uma não vou demorar.
- Está bem, só estou esperando aquele casal
sair para fechar, portanto não enrola e beba logo, está bem?
- Obrigado.
É obrigado, mas deixe dizer uma coisa. Não
volto mais para aquele lugar. Que lugar? Ora, para a balada aí do lado. Aquele
pessoal pensa o que? São os bons é? Não são só porque você chega com todo o
agrado, passa a mão de leve na bunda, acarinha os seios, dança colado, e já
querem ser dona da gente, é? Não são fiquem sabendo. O pior é que todos eles
ficam contra a gente. Que vão à puta que pariu, não quero saber mais deles,
viu. Pode dizer isso, eu prometo não quero mais saber de nenhum deles.
- Está bem, amigo. Toma, coloquei sua cerveja
neste copo descartável. Preciso fechar. Amanhã trabalho de novo.
E de leve foi levando ele para a porta.
Olhe eu também trabalho viu? Mas vou embora
sim. Não quero mais saber de Estela nenhuma. Você conhece a Estela? Conhece?
Ah! A minha Estela é bem melhor do que a Estela do filme pode crer. Estela eu
te amo.
Na calçada virou o resto da cerveja de um gole
só jogando o copo vazio no meio fio. Estela sabe que você é mais bonita que a
Estela do filme, viu, fique sabendo disso. E gritando o nome da amada, trôpego,
ele se enfurnou na madrugada sendo engolido pela escuridão. Ouvia-se ao longe
ainda o seu grito de amor pela Estela. Tempo depois, não se ouvia mais nada. De
repente, em off soou uma voz:
- Corta!
Desligou a televisão. Por segundos, parado no
meio da sala, em frente ao aparelho, deixou que a emoção dominasse-o
totalmente. Bárbaro! Foi o que conseguiu dizer: Bárbaro! Muito bom. Será
escolhido não tinha dúvida. O teste fora perfeito. Tão perfeito que ele próprio
chegou a se emocionar. Putz! Sua capacidade interpretativa é imensa. Será que
não escolheriam ele!? Claro que sim. Será escolhido, mesmo que para isso
precisasse mexer os pauzinhos por baixo dos panos. Quem sabe até conceder
certos favores.
Pensando assim, colocou no copo uma boa dose de uísque e entrou no banheiro
para tomar um bom banho e depois cair na cama com a certeza de que será
escolhido. Tinha quer ser... Não é?
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