Ruan estava se sentindo como o personagem do Selton Mello, Lourenço no filme O
Cheiro do Ralo. O cheiro fétido que todos sentiam, Lourenço se desculpava
dizendo que era do ralo e não dele. Só que ninguém dizia para Ruan que ele
fedia, ou que estivesse fedendo, talvez por delicadeza, para não ofendê-lo.
Deduzia que somente ele sentia o seu fedor, e isso quando precisava fazer suas
necessidades fisiológicas. Quando estava nos limpamentos ao ver suas impurezas
escorrendo pelo ralo, ops, quer dizer, pelo esgoto do vaso sanitário, isso o
deixava meio deprimido, pois não era do seu feitio negligenciar a higiene corporal.
Tomava banho todos os dias, às vezes até três vezes ao dia, quando possível, e
quando não podia se enchia de perfume, desodorante, e dos melhores, não gastava
seu rico dinheiro com produtos inferiores. Então porque se sentia fétido? Não
era do vaso entupido que demorava a engolir suas impurezas, não era. Era dele
mesmo, percebia. Estaria se deteriorando lentamente? Credo!
Deu risada. Pelo que ele saiba estava usando aparelho auditivo e não aparelho
olfativo. Será que sua deficiência auditiva aguçou a olfativa? Riu para o
espelho que lhe mostrava sua face de todos os dias. Face que ainda não se
acostumara com ela. Bom, de duas uma, ou ele estava mesmo se desintegrando
fetidamente ou então, o que era o mais provável, o mundo é que estava fedendo e
não ele. Considerou a segunda hipótese, o mundo é que estava mesmo se
desintegrando na merda de todos os dias. Apagou a luz e saiu do banheiro se
preocupando com outras coisas mais interessantes.
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