... Que o Vento o Carregue.
Ficou de cócoras e com um pano limpou a calçada. Estendeu o pano, sentou-se com
as costas apoiadas a parede do edifício, o único residencial naquele
quarteirão. Sentou-se, se ajeitou, colocou os panos de pratos bordados por ela,
todos enrolados dentro de um cesta de vime. Cruzou as pernas, pegou Jorge das
mãos de Ilda, procurou deixar o filho confortável entre suas pernas, e em
seguida, colocou a frente da cesta de vime uma caixa pequena de papelão.
- Ilda não vá longe.
- To com fome, mãe.
- Eu sei filha. Também estou com fome. Toma
coma essa bolacha, disse para a filha retirando da sacola um pacote.
Lena tinha a perspectiva de pelo menos
vender uns três panos de prato. Daí poderia comprar um lanche para ela e para a
filha, apesar de que a ordem de Genor é de levar toda a grana para ele. No
entanto não podia deixar a filha com fome. Só esperava que não aparecesse
nenhum guarda e arrastasse para a delegacia como fora da última vez.
- Olha Dona, se eu pegar de novo a senhora, serei
obrigado a chamar a assistência social. Aí eles vão tirar as crianças e levar
para o juizado de menores.
- Mas Doutor, preciso alimentar meus filhos.
- Sei, mas isso o que a senhora faz é abuso ao
menor.
- Não tenho com quem deixar eles, doutor.
- E o seu marido?
- Marido, doutor, está dois anos sem emprego e
parece que gostou de ficar sem trabalhar. Só sabe beber e bater na mulher.
- Bem, dessa vez passa, mas da próxima não tem
perdão. É a lei e estou cumprindo a lei.
É a lei, é a lei disse rispidamente várias
vezes. Ora a lei, quem é essa senhora que não me deixa trabalhar, sustentar
meus filhos? Não queria nada para ela, não queria ver os filhos sofrerem.
Chegando à casa, se é que aquilo poderia ser chamada de casa, o marido já veio
agredindo-a, arrancando a bolsa das suas mãos, tirando dela o pouco que
conseguira. Novamente bêbado, pensou ela, acho que nem foi procurar emprego.
Avançou em cima dele, deu um empurrão que caiu na cama desacordado. Olhou para
aquele homem que um dia se dizia ser seu marido. Sentiu pena dele e de si
mesmo. Arrumou as poucas coisas que tinha num saco, pegou Jorge no colo, deu a
mão para Ilda, saindo do barraco.
- Mãe, chamou Ilda.
- O que foi filha.
- Aonde vamos?
- Para longe daqui
- E o pai?
-... Que o vento o carregue.
- Você “nunca mais vai passar fome outra vez”, minha filha.
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