Empenhado em escrever... O escrever é pulsão encravada nos fios da pele... Devo
e preciso escrever, disse a si mesmo. O que propriamente, é que são elas, como
se diz no jargão plebeu. É! O que escrever nesta modorra manhã nada ensolarada,
onde a temperatura meio baixa fustiga os ossos dos prédios e queima as
estruturas da alma. Levado pelo pensamento ordena as palavras uma atrás da
outra sem esboço, sem técnica criativa que seja verossímil. Enquanto as mãos
executam mecânicos gestos, a mente pinça palavras que os dedos pressionam no
teclado preto o seu poder. Sim, ele escreve, pois o escrever está paralelo ao
viver intenso nos minutos que respira e, em certos momentos, se interpenetra um
no outro o deixando confuso sem saber se vive para escrever ou se escreve para
viver.
Prisioneiro das adversidades que não esperava
fosse acontecer se aquiesce sobre a pressão dos movimentos alheios como se
ferro ardendo em brasa o queimasse. Escreve na superfície lisa das pedras as
quais é obrigado a se desviar. Escreve na amplidão da avenida vazia de
solidariedade que corrói o asfalto quente da miséria humana. Não serão os
perigos, os buracos, as pedras falsas que o fará desistir, de cair em depressão
assassina, não será. Com muito custo entendeu que o sentir pena de si mesmo,
destruía seu potencial criativo, seu valor humano como pessoa.
Assim elaborou planos, teorias, sofismas e outros ismos, deixando no limbo os
porquês que o atormentava. Correu meandros deixando-se levar na esperança de
fortalecer a carne dilacerada pelo desespero. Por sua teimosia sofreu e fez outros
sofrerem por pura falta de paciência. Não se arrepende, como sempre diz: “não
me arrependo de nada, me arrependo daquilo que não fiz”, e se houver
reencarnação, quer voltar e fazer tudo o que não fez nesta vida. Entende que
lhe faltou na estrutura o cálcio mais rigoroso do amor e, o pilar fortificando
a paciência.
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