Niall na página 32, do capítulo III, disse:
-
Tive aquela esquisita sensação, que costumava sentir quando criança e que não
voltava desde muitos anos... A sensação de que tudo isso aconteceu antes.
-
Acontece muitas vezes comigo – disse Maria. – Vem de repente, como um fantasma
roçando a gente e indo embora outra vez, deixando um mal-estar. (Os parasitas,
Daphine Du Maurier).
Ao ler essas linhas, teve a nítida percepção que isso também já se passara com
ele, e que agora, há muito, muito tempo, não tinha mais essa sensação. Quando
andava pelos meandros soturnos do espiritismo, costumava ouvir que essa
sensação era prova de que existiam vidas anteriores. Era prova tênue da
reencarnação. Prova nada consistente dizia para si mesmo. Será...? Por que não
tinha mais essa sensação esquisita? Nunca mais afirmou: parece que já estive
aqui ou, acho que já passei por uma situação igual a essa.
O que fez quebrar essa cadeia de que já teve vidas passadas? A desilusão de que
não existe Deus? De que a religião é apenas um sustento para os fracos de
espírito com medo terrível de seus desejos e ações? Conseguiu se livrar dos
seus desejos pressionados pelo pecado? Quanto a isso tinha absoluta certeza que
sim. Quer dizer. Descobriu que não existe pecado. Tinha uma noção romântica
ultrapassada da vida. Relembrando os fatos, colocando ordem as lembranças,
tanto as boas como as más, espantou-se com a transformação. Assim como perderá
a inocência infantil com a primeira ereção, e depois, a juventude aos vinte
quatros anos com a descoberta do sexo e, a maturidade, quando casou aos
quarenta anos, trazia a consciência burguesa encravado nele. Era esse acontecer
atrasado, em sua opinião, que o prejudicava. Mas por quê? Destino?
Olhou
mais uma vez para ele mesmo. Não distinguiu nada do que estava se sentindo. O
sentir não batia com o físico. Fechou a porta que poderia proporcionar um novo
caminho. Fechou a porta inconscientemente, não percebeu a incongruência dos
fatos fazendo-o se sentir deprimido por não alcançar o desejado. Mas, para que,
se ele mesmo não sabia o que queria alcançar?
No conformismo clorofórmico dos sentidos, abriu a terceira garrafa de vinho, ligou o som, colocou um cd do Floyd, The dark side of the moon, deitou no sofá que não era azul, mas confortável e deixou que a música invadisse suas entranhas profundamente rasgando sua carne nua.
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