- O que acha desse tecido? – perguntou mostrando a peça para ele.
-
Para que? – respondeu intrigado.
-
Ora! Não sei quem sabe uma blusa para mim.
-
Se for para você é bonita, está mais para mulher do que para homem.
- Vamos ver outros, então.
E
continuaram a andar pela loja de mãos dadas pouco se importando com o vai e vem
das pessoas.
A
loja especializada em peças de panos de todos os tipos mantinha uma
movimentação de fregueses até que razoável. Como os tempos vinham mudando, a
loja procurava se adequar as modificações para não perder a clientela.
Percebia-se que lentamente, em proporções estritamente pequenas, móveis vinha
sendo expostos nos cantos das vitrines tendo ao lado cartazes que prometiam
vantagens que um carnê possibilitaria adquirir o objeto dos seus sonhos.
-
Reparou que a loja está mudando? – disse ele um tempo depois.
-
É preciso se adaptar aos tempos novos, não acha?
-
Acho, mas só que com isso, ela deixa de ser aquela loja só de tecidos e passa a
ser uma loja qualquer que vende quase de tudo.
- Se tornando como o Mappin, vendendo a prazo, onde os pobres coitados compram
com a promessa da facilidade que o carnê “apresenta.”
Duas semanas depois, ela lhe entrega um pacote todo enfeitado.
- Um presente para você. – disse toda alegre.
Pelo
formato da caixa só podia ser uma camisa, pensou.
-
Obrigado, por que isso agora?
-
Ah! Por que achei que deveria lhe dar um presente, ora...
Abriu o pacote lentamente, desconfiado, já imaginando o que saltaria aos seus
olhos. E dito e feito. Deparou com uma camisa toda de bolinha verde com umas
flores em rosa, era o pano que haviam escolhido duas semanas atrás e que ela
pediu a sua opinião dizendo que seria para uma blusa para ela. Ficou
tetricamente abismado com aquela aberração. Ele não iria vestir de maneira
nenhuma a camisa. Vendo o namorado quieto, perguntou:
-
Gostou?
-
Se gostei?! Oh! Claro que gostei para dar ao primeiro mendigo que aparecer.
-
Mas como não gostou se foi você mesmo quem escolheu o pano.
- Escolhi pensando que fosse para você, fui enganado e essas coisas não se faz.
-
Sua mãe gostou. Ela que fez a camisa.
-
O que? Minha mãe!
-
É, sua mãe.
-
Ela não percebeu que esse pano é horrível, feminino demais para um homem? Ela
pensa que eu sou o que? Veado é isso?
-
Não é isso...
-
É o que então, me diga.
-
Bem, ah você tinha gostado do pano?
-
Sim, gostei para os outros e não para mim.
-
Você é ingrato...
-
Ah! Sou ingrato, ta certo. Tudo bem fique com a camisa e tchau.
- Espere! Você não está falando a verdade, está?
-
E por que não estaria?
-
É uma camisa apenas.
-
Certo, uma camisa embrulhada na enganação patética de rebaixar o gosto dos
outros, isto é, do seu namorado.
-
Se é assim levando aos extremos uma simples discordância, passe bem.
-
Simples discordância que no futuro poderemos maldizer nossas decisões de hoje.
Não
esperou respostas. Deu as costas, bateu o portão, jogou a caixa no próximo lixo
que encontrou e nunca mais ouviu falar dela, e, nem ela nunca mais ouviu falar
dele.
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