Dia vinte de maio, engendrando os passos largos na canseira do sono, desci do
fretado, e no abstracionismo da mente, comecei a elaborar palavras que num
ligamento de frases dessem ideia ao que pensava. Foi então que lembrei:
pretendia mudar a direção dos passos, mas a preguiça da manhã bonita de sol me
fez desistir. Queria passar no local onde fica o cachorro da Érica, isto é,
desculpe Érica, passar no local onde fica o cachorro que a encantou, mas
resolvi não passar por pura preguiça. Assim sendo, cruzei a Padre João Manuel,
atravessei a Paulista, e aqui estou no engraçamento dessas palavras que serão
lidas quem por elas estiverem interessadas.
Dia vinte, terça-feira, talvez
estejam no estranhamento do meu dizer. É que estou lendo: São Bernardo, de
Graciliano Ramos, o qual recomendo. Não é uma leitura difícil, acho até fácil,
história simples, o que encanta é a secura da escrita o modo de falar dos
personagens, as palavras diferentes que não conhecemos, não há palavras
complicadas, mas para quem não está acostumado, como diz o Sinval, é preciso
ter um dicionário ao lado. Nada de acordo ortográfico, nada de globalização,
viva as diferenças étnicas, sociais e culturais.
Dia vinte, terça-feira, um rio
com milhares de corpos flutuam no delta do Rio Irrawaddy, em Mianmar, mas a
junta militar do país não está protegendo os sobreviventes. É difícil superar o
cinismo dos generais.
Dia vinte, terça-feira, ruas
paradas já levam o caos ao céu de São Paulo e nada se faz, só discutem e tudo
continua na mesma, que se ferre São Paulo mais o povo num afogamento de carros
e buzinas infernais.
Dia vinte, terça-feira, o sono
se fortalece com as cortinas semicerradas envolvendo o viciado ambiente em
sonolência a qual o corpo não consegue vencer.
Dia vinte, terça-feira, dos teus
beijos eu engulo a saliva das palavras transformando-as todas as noites em
intensos orgasmos e durmo no cheiro dos nossos sexos o sono dos justos.
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