Dia vinte e três de maio, sexta-feira, sol em pleno vapor na sua beleza
iluminando prédios humanos e escuros entre mortos e vivos, ou melhor, entre
zumbis e poucos vivos.
Sexta-feira, depois do feriado, trânsito livre,
poucos veículos e as sete e quinze eu descia do fretado. Aproveitei para dar
uma volta no quarteirão e não vi o cachorro que encantou a Érica e acho que não
o verei mesmo.
Se o leitor for perspicaz notará uma transformação
nesse escrever a partir de hoje. Terminei São Bernardo e comecei a ler Dóris
Lessing, - O Sonho de Martha Quest -, ganhadora do prêmio Nobel desse ano, que
com o Carnê Dourado, tornou-a conhecida, não sei se para o mundo, mas para mim
sim, pois foi o primeiro livro dela que eu li, e que recomendo.
Morreu o pai do Romário, e daí, digo eu, ele, o pai
do Romário já cumpriu seu papel nesse teatro imundo sem atos e muitos bugalhos.
Não há como dar crédito aos dizeres embalados em papel roxo da raiva. É
preciso, com muito esforço, para não cair na depressão de sentir-se preterido.
Esquivar-se das ásperas palavras que, como flecha incandescente, queima o peito
da alma. O intelecto aos poucos míngua matando o ânimo que, fraco, se isola na
solidão das palavras vazias. O suicídio lento impresso nos objetos inúteis é
como fuga sem saída.
O sono esfola os olhos de areia, queima a menina
que não desperta nas horas lentas enchendo de ansiedade o corpo cansado.
Tudo é digerido na rapidez da necessidade financeira desprezando os prazeres do
momento, da hora, da comida, do café, da carne suculenta que escorre lágrimas
banhando corpo dilacerado no prazer instantâneo.
Emerge no meio dia a fome esquálida esparramada na
calçada que não é da fama, mas inflama a vergonha em saber-se covarde sem ter a
centelha da batalha.
Fecha-se o casulo egocentricamente nos passos
tímidos de cidadão de um mundo só dele, nada mais.
Assim, mais um dia que se arrebenta no mar de vidas
a se jogar uma na outra como onda sem destino.
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