Pois
é, mais um dia que avança com seus maléficos dons viciando-me a viver
intensamente como se fosse o último dia da minha vida.
Mais
um dia calcinando as ausências que bipartem o coração de saudade em cada
filigrana do sol aquecendo o gelo em meu peito.
A
cidade com seus sons múltiplos e confusos, com sua luminosidade cinza e opaca,
com seus gritos de angustia e fome, com sua pequena grandeza efêmera, com seus
campos e edifícios multiplicando beleza e feiura, não me compreende como tento
compreendê-la sem racismo e preconceito.
No
celulóide cinematográfico, numa sequencia de vinte e quatro quadros por
segundo, a cidade me consome marginalizando em cada esquina uma história
sórdida. Assim
minha filmografia aos poucos se atualiza nas prateleiras dos cinemas dos
amigos, eternos coadjuvantes assim como sou coadjuvante na filmografia deles.
Não
há obra prima, não há drama oscarizado, não há comédia pastelão, apesar de
certo humor, não há suspense, apesar dos sustos ocasionais, não há intrigas
sensacionais, não há aventuras espetaculares, não há animação de qualidade, não
há musicais como os de antigamente, os gênios tomaram o trem azul.
E,
jogado sem eira e sem beira, entre trancos e barrancos vou à margem do gosto de
uma intelectualidade cultuada em desgastantes programas televisivos.
Colho
a argamassa mal feita, colho o rímel das prostitutas travestidas de desejos,
colho os orgasmos transparentes da ansiedade latente em cada parede de hotel.
E,
no silêncio da batuta do maestro, colho a sonoridade do meu corpo em um único
movimento suicida de não mais sentir o gosto do teu corpo.
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