Eclodiam
pequenos atos cuja pulsação carregava certo dinamismo aos gestos sonolentos da
manhã cinzenta ameaçando chuva. Isso lhe dava uma transparência que o forçava a
entender os movimentos da manhã, não os seus movimentos, mas os movimentos que
compunham a manhã; os movimentos dos carros, das pessoas, dos vendedores, dos
jornaleiros, até os movimentos às vezes chocantes dos pedintes e dos camelôs
que, como sempre, atulham a calçada sujando e atrapalhando o fluxo dos que tem
algo para fazer. Vozes, gritos, conversas, freadas, filas, vendedores de
guarda-chuva - precisava comprar um, o antigo quebrara - risadas, vozes que
passavam por ele apressadas, sinfonia de ações vibrando em vários acordes
compondo uma única melodia: a vida.
No
fluxo das ideias estagnou-se no meio da avenida enquanto os carros passavam por
ele. Jubilou-se num contentamento em que precisou abafar o grito: eu também
faço parte dessa vida, quis gritar, clamar pela avenida toda, pelos bares,
bancos, edifícios, praças, museus, em cada esquina, mas se conteve se reprimiu,
ninguém o entenderia, achariam que ele estava louco, diriam: mais um louco a atrapalhar
nossa vida. Vivia dizendo que não liga para o que pensam ou digam dele, e então
porque não faz o que deseja? Sim, poderia fazer, e se ele fizer estaria
quebrando as regras da sociedade, mas a vida para ser vivida intensa e completa
não é um quebrar de regras? E esses que estão amargando o topo da fama, sendo
disputados pela mídia, uns merecidamente outros nem tanto, e, numa faixa menor,
alguns quebrando pateticamente as regras do seu insignificante mundinho, o que
fizeram? Quebraram regras, seja ela qual for e como foi. Quebraram, e porque
ele também não pode quebrar pelo menos que fosse uma regra. Gritar o seu amor
por tudo isso que o rodeia nessa manhã cinzenta ameaçando chuva?
Nisso
viu dois rapazes, quase em frente ao Bradesco ao lado da banca de jornal,
tocando violino. Estariam eles quebrando regras? Sim, acha que sim, só por
estarem ali, cada um com seu violino, pouco se importando se acham que eles
tocam bem ou mal, já é um fato. Ninguém prestava atenção nos dois. Só ele.
Ficou por uns momentos observando-os com uma pontada de inveja. Teria coragem
de imprimir seus poemas em pequenos papéis e distribuir aos transeuntes por
onde passasse? Não, não teria e sabia que nunca iria fazer isso, pois essa
ideia já rolava na sua cabeça há muito tempo. Num imperceptível mover de
ombros, agradeceu aqueles dois por esse momento de reflexão e, mentalmente
desejou que alcançassem o que desejavam. Continuou sua caminhada se embrenhando
na mata de seres humanos invisíveis com suas vidas corriqueiras de citadinos
contentes com o a vida.
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