Quando
sentou para almoçar, reparou nas pessoas falando alegremente na mesa ao lado.
Estava também, aquele senhor encostado à parede tomando calmamente a sua
cerveja.
-
Boa tarde, vai o de sempre? – perguntou o garçom.
-
O de sempre faz favor. – não seria mais pego em cilada nenhuma pelo garçom, nem
daqui e nem de outro lugar, seja restaurante, boteco ou lanchonete.
O dia estava gostoso, apesar
do vento que soprava. Um vento que levantava a saia da alemã. Já tinha visto
aquele pessoal em outros dias. Vinham sempre em bandos, isto é, aos poucos até
formarem quase dez pessoas em volta da mesa. Falavam, gesticulavam, procuravam
por meios de palavras arrastadas fazer-se compreender. Quando o garçom os
entendia, satisfeito sorriam, agradeciam. Dava a impressão que para eles não
havia tempo ruim. Enfrentavam tudo numa boa. Minha mãe dizia que o povo alemão
é um povo alegre e, como descendente de alemão, mesmo com os percalços da vida,
ela era alegre, sempre rindo, contando piada...
O
que fazia uma pessoa sair do seu país para viver em outro completamente
diferente, em costumes, gosto, cultura e, o mais difícil, língua, perguntei a
mim mesmo. Alemão tem uma língua arrastada, parecem que raspam a língua no céu
da boca e nos dentes. Uma língua que sofria de paradas bruscas, paradas feitas
de sustos. Pareciam seres de outro planeta. Metaforicamente eram, por que não!
Hoje, sábado até que estavam
em grupo menor de pessoas. Três mulheres e dois homens. Uma das mulheres, a que
estava de frente para mim, cabelos pretos, os óculos no alto da cabeça, fumava,
era a que mais falava. Tinha uma feição bonita, nariz delicado, o lábio
pequeno, um queixo redondo, inspirava confiança. Presenciei a peripécia que
fizeram para pedir o almoço. Foi uma pantomima, eles falando, gesticulando e o
garçom dizendo isto ou aquilo, também gesticulando, até que se entenderam. E
agora estavam no aguardo da comida enquanto saboreavam seus aperitivos e
cervejas.
A
espera do meu fígado acebolado com arroz tomava a caipirinha caprichada, bem
feita. Aliás, ali era o único lugar da redondeza que tem uma caipirinha
gostosa. Nisso, sem menos esperar, chega uma criança, um menino, moreno, de
seus oito ou nove anos. O garçom rápido pede para o menino se retirar, mas os
alemães não deixam. O garçom se retira, já que querem encrenca que fique com
encrenca, acho que foi isso que ele pensou. O pequeno pedia algo, a alemã
falava com ele, até que ela indicou o rapaz que estava a sua frente. O rapaz
levantou-se, chamou o menino, pegou-o pela mão e entraram na loja Americana.
Não demoraram nem cinco minutos, e eis o menino todo alegre, com um ovo de
páscoa na mão. Sorridente agradeceu e foi embora.
Tudo volta aos eixos, pensei,
agradecendo o garçom por trazer meu fígado acebolado. Nisso, aparece novamente
o menino e um bando de crianças atrás deles, todos morenos, entre meninas e
meninos, dos três até mais ou menos, dez ou doze anos. Rodearam a mesa dos
alemães. Os germânicos arregalaram os olhos, mas não perderam a calma. O menino
foi chegando e falando para os seus companheiros: - Foi ele que me deu o ovo,
indicando o alemão que fora com ele a loja. A menina, a que parecia ter doze anos,
pedia: - Por favor, compre um para ela, apontando a menor de todas. As crianças
se esparramaram envolvendo das alemãs. Estas falavam, isto é, tentavam se fazer
compreender em português arrastado, até que, não sei se as crianças entenderam
ou não, sei que foram embora. Os alemães continuaram a conversa como se nada
lhe tivessem acontecido.
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