Não tem dúvida que o que eu fiz é caracterizado como
crime, disse enquanto olhava o céu azul da janela do seu pequeno apartamento.
Sabia de antemão as conseqüências que tal ato provocaria, sabia sim. Tinha a
real noção de cada movimento, de cada gesto, de cada pensamento animando-o a
por em prática o que repentinamente ousou fazer. E ao se decidir: é agora, o
peito se inflou acelerado aumentando o batimento cardíaco que pensou em voltar
atrás. Não podia voltar, tomou coragem e partiu para o que desse e viesse.
Controlou as veias inchadas de excitação, enxugou o suor com as costas da mão
evitando que escorresse molhando os olhos. Olhou para os lados, observou o que
faziam. Naquela hora havia poucas pessoas na livraria. Prestou atenção nos
movimentos dos vendedores atendendo os fregueses. Calculou exatamente cada
movimento que ele teria que fazer com os movimentos dos vendedores entretidos.
Não tinha ninguém no caixa. É o momento, disse. Não notaram sua aproximação.
Fazendo-se de desinteressado, como estivesse apenas a correr os olhos pelas
capas, chegou perto do livro que desejava. Devagar, quase que amorosamente,
pegou o volume de capa vermelha com letras douradas, folheando a entreter-se em
determinados trechos. Na verdade, fingia ler, mas pelos cantos dos olhos, tanto
à direita como a esquerda e por cima dos óculos, supervisionava a pequena
movimentação das pessoas. Sentia-se invisível, não o notavam parado com o livro
a mão. Foi num relance, depois ele estranhou até a sua rapidez, num relance
enfiou o livro dentro da mochila e ao mesmo tempo pegando outro volume.
Assustou-se com sua audácia, a mão tremia levemente. Suspirou fundo e tratou de
se acalmar. Assim deixou se inundar por uma onde de alívio, se preocupando tão
somente com a ansiedade em querer sair logo da loja. Obrigou-se a reter a
ansiedade e dirigiu-se a um vendedor.
- Por favor, tossiu umas duas vezes, desculpe, por favor
poderia me dizer quanto custa esse livro?
O vendedor pegou o volume, consultou o computador e
respondeu:
- Setenta reais, devolvendo o romance. Vai levar?
- Não, obrigado, fica para outra vez.
Deu as costas ao vendedor com a leve impressão que ele
poderia ter desconfiado de algo. Enquanto andava com passos firmes, sentia os
olhos do rapaz queimando suas costas. Saiu da livraria, parou um pouco na porta
demonstrando indecisão. A vontade era de correr, mas se conteve, andando
devagar. Na esquina tomou o ônibus. Apertou a mochila com força contra o corpo
sentindo o grosso volume machucando seu corpo. Só foi correr quando chegou a
porta do edifício. Só sentiu-se seguro quando fechou a porta do apartamento
girando a chave na fechadura. Excitado, arrancou o livro da mochila. Deu um
grito de vitória e se jogou na poltrona. Leu o título: Orlando, Virginia Woolf
e o mundo desapareceu...
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