quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Sou um homem de dez mil reais.

 É. Sou um homem de mais ou menos dez mil reais. Vejamos: a operação no joelho onde foi colocada uma porca – olha o milagre da medicina: uma porca no meu joelho! - e o parafuso custou uns mil reais. Agora com o aparelho auditivo são cinco mil e oitocentos reais, juntando como os mil do joelho são: seis mil reais. Se eu encarar a operação da coluna vertebral e, talvez se for preciso colocar alguma placa ou algo semelhante, poderá ser mais ou menos mais três ou quatro reais. Juntando tudo, serão quase dez mil reais. É verdade, para chegar aos cinco milhões de dólares que valia o Ciborg, estou longe. Mas posso dizer que sou um homem de dez mil reais.

Há uma diferença bárbara de antes do aparelho auditivo e com o aparelho auditivo. Também posso dizer que sou um homem antes do aparelho e depois do aparelho. Uma Dou razão ao médico, estava escutando bem baixo mesmo. Antes não ouvia o barulho das teclas sendo pressionadas pelos meus dedos agíeis, agora ouço com nitidez. O som, por exemplo, ouvia um som grave, compacto, não distinguia direito os instrumentos, cheguei até pensar que era defeito do aparelho, mexia nas configurações para que o som saísse mais limpo, claro, mas não era o som e, muito menos o aparelho de som, era o meu ouvido. Antes para ouvir nitidamente, colocava o volume no número 40, tanto é que o pessoal vivia reclamando, agora, colocando no número 18 está alto para mim. Posso até dizer que antes não ouvia o farfalhar das asas do pernilongo, agora, não só ouço o farfalhar das asas do pernilongo como ouço até a picada e o sangue sendo sugado. Exagero? Não, não é exagero, é apura realidade poética da necessidade de se ouvir.

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