domingo, 17 de março de 2024

Duas vozes gritam no alarido da vida.

O tanto quanto o balanço do ônibus me permitia, procurava me concentrar na leitura da Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, quando uma voz chamando a atenção dos passageiros, me obrigou a desviar a atenção do livro.

- Senhores e senhoras, desculpe interromper o sossego de vocês. Mas é que estou desempregado há meses, e a solução que encontrei para poder levar um dinheirinho para casa foi essa. Ao invés de pedir esmola, achei melhor vender essas balinhas de chocolate de boa qualidade. Podem verificar a validade do produto. Uma são cinqüenta centavos, três faço por um real, nos supermercados vocês encontrarão uma por um real. Aproveitem. Quem vai querer? Vou passar um por um, mesmo que não queiram peguem para verem que falo a verdade.

E foi ele entre licença aqui, licença ali, distribuindo as balinhas para o pessoal. O ônibus não estava super lotado, estava razoavelmente cheio, o que dificultava o vai e vem em distribuir e receber as balinhas de chocolate.
Tudo bem, o cara precisa sobreviver, não pode morrer de fome, mas comprando as balinhas só estarei incentivo-o a continuar nessa vida de mendicância, vendo que com isso consegue dinheiro fácil, pra que irá querer outra vida? Além do mais, não vou comprar só para ajudá-lo, e vai se saber de onde vem ou como ele armazena essas balas em sua casa. Instantes depois, ele desceu e eu pude voltar à atenção ao livro.

O que foi por pouco tempo. Enquanto meus olhos percorriam os versos da Lira dos Vinte Anos, ouvia uma voz como se estivesse falando com alguém. Falava e ninguém respondia. Até que divisei o dono da voz. Era um homem mirrado, vestido simplesmente, não muito alto, o rosto magro onde se percebia as bochechas afundadas na cara, dando um ar doentio. Falava com uma voz alta, sem demonstrar ódio ou raiva, mas uma angústia assustadora.

- Eu preciso todo mês vir para São Paulo fazer exames. Se não fizer isso não terei remédio de graça e eles não mandam para a minha cidade. Sou professor, trabalho na prefeitura, e a assistente social me deu licença médica e cinqüenta reais para vir para São Paulo. Sou HIV positivo, preciso do remédio. Sai do hospital e fui abordado por um sujeito bem vestido dizendo estar aqui em busca de emprego já fazia mais de três meses. Bem vestido, falante, fomos jantar. Não sou o que vocês estão pensando, fiquei com pena dele e no fim fui roubado, me bateram, ele estava com mais dois sujeitos, quando saímos do restaurante eles me bateram. Levaram meu dinheiro, meus documentos, tudo. O policial que me atendeu, arrogante, quando fui dar queixa, me tratou mal, preconceituoso, fui humilhado só porque sou HIV positivo, disse: - Bem feito isso que dá ser veado. Não sou gay, tenho mulher e uma filha, preciso voltar para casa e não consigo. Já fui lá Barra Funda, a assistente social me disse que é impossível me ajudar. Ela ligou para minha cidade e falou com a assistente social da prefeitura de lá, e eles disseram que eu estava de férias, logicamente que assistente social da Barra Funda não acreditou em mim. To com fome, sujo, fedendo, desde segunda feira estou com a mesma roupa. Não sei mais o que faço. Fiz um escarcéu, briguei com a assistente social, me levaram para a cadeia, até que foi bom. Lá a policial me tratou com carinho, me deu cinco reais e me levou ao albergue, mas não pude ficar, estava lotado. Fui ao Parque Dom Pedro, num prédio onde os mendigos de rua usam como sanitário, e foi lá que estou dormindo esses dias. Estou cursando o segundo ano da faculdade, não sou de estar pedindo esmola. To com a maior vergonha de estar aqui falando com vocês essas coisas, mas juro, é por necessidade, preciso de trinta e cinco reais para voltar para minha casa. Estou desesperado. Não sei mais o que faço.

Achei a história mal contada. Se ele é doente e, está fora de casa mais de cinco dias, os familiares logicamente estariam a sua procura. E por que não consegue voltar para sua cidade?

Histórias como essa ou, pior, rolam pela cidade desumana e bela.

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