O tanto quanto o balanço do ônibus me permitia, procurava me concentrar na leitura da Lira dos Vinte Anos, de Álvares de Azevedo, quando uma voz chamando a atenção dos passageiros, me obrigou a desviar a atenção do livro.
- Senhores e
senhoras, desculpe interromper o sossego de vocês. Mas é que estou desempregado
há meses, e a solução que encontrei para poder levar um dinheirinho para casa
foi essa. Ao invés de pedir esmola, achei melhor vender essas balinhas de
chocolate de boa qualidade. Podem verificar a validade do produto. Uma são
cinqüenta centavos, três faço por um real, nos supermercados vocês encontrarão
uma por um real. Aproveitem. Quem vai querer? Vou passar um por um, mesmo que
não queiram peguem para verem que falo a verdade.
E foi ele entre licença aqui, licença ali, distribuindo
as balinhas para o pessoal. O ônibus não estava super lotado, estava
razoavelmente cheio, o que dificultava o vai e vem em distribuir e receber as
balinhas de chocolate.
Tudo bem, o
cara precisa sobreviver, não pode morrer de fome, mas comprando as balinhas só
estarei incentivo-o a continuar nessa vida de mendicância, vendo que com isso
consegue dinheiro fácil, pra que irá querer outra vida? Além do mais, não vou
comprar só para ajudá-lo, e vai se saber de onde vem ou como ele armazena essas
balas em sua casa. Instantes depois, ele desceu e eu pude voltar à atenção ao
livro.
O que foi por pouco tempo. Enquanto meus olhos
percorriam os versos da Lira dos Vinte Anos, ouvia uma voz como se estivesse
falando com alguém. Falava e ninguém respondia. Até que divisei o dono da voz.
Era um homem mirrado, vestido simplesmente, não muito alto, o rosto magro onde
se percebia as bochechas afundadas na cara, dando um ar doentio. Falava com uma
voz alta, sem demonstrar ódio ou raiva, mas uma angústia assustadora.
- Eu preciso todo mês vir para São Paulo fazer exames.
Se não fizer isso não terei remédio de graça e eles não mandam para a minha
cidade. Sou professor, trabalho na prefeitura, e a assistente social me deu
licença médica e cinqüenta reais para vir para São Paulo. Sou HIV positivo,
preciso do remédio. Sai do hospital e fui abordado por um sujeito bem vestido
dizendo estar aqui em busca de emprego já fazia mais de três meses. Bem
vestido, falante, fomos jantar. Não sou o que vocês estão pensando, fiquei com
pena dele e no fim fui roubado, me bateram, ele estava com mais dois sujeitos,
quando saímos do restaurante eles me bateram. Levaram meu dinheiro, meus
documentos, tudo. O policial que me atendeu, arrogante, quando fui dar queixa,
me tratou mal, preconceituoso, fui humilhado só porque sou HIV positivo, disse:
- Bem feito isso que dá ser veado. Não sou gay, tenho mulher e uma filha,
preciso voltar para casa e não consigo. Já fui lá Barra Funda, a assistente
social me disse que é impossível me ajudar. Ela ligou para minha cidade e falou
com a assistente social da prefeitura de lá, e eles disseram que eu estava de
férias, logicamente que assistente social da Barra Funda não acreditou em mim.
To com fome, sujo, fedendo, desde segunda feira estou com a mesma roupa. Não
sei mais o que faço. Fiz um escarcéu, briguei com a assistente social, me
levaram para a cadeia, até que foi bom. Lá a policial me tratou com carinho, me
deu cinco reais e me levou ao albergue, mas não pude ficar, estava lotado. Fui
ao Parque Dom Pedro, num prédio onde os mendigos de rua usam como sanitário, e
foi lá que estou dormindo esses dias. Estou cursando o segundo ano da
faculdade, não sou de estar pedindo esmola. To com a maior vergonha de estar
aqui falando com vocês essas coisas, mas juro, é por necessidade, preciso de
trinta e cinco reais para voltar para minha casa. Estou desesperado. Não sei
mais o que faço.
Achei a história mal contada. Se ele é doente e, está
fora de casa mais de cinco dias, os familiares logicamente estariam a sua
procura. E por que não consegue voltar para sua cidade?
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