Ele poderia ter dito um palavrão ou mais até, como não
era de extravasar a raiva dizendo palavrões, o máximo que disse ou, que ele
lembrava foi um merda somente. Passado o momento da decepção, tentando recordar
o que acontecerá, se conscientizou que talvez tenha dito o palavrão, mas como
tudo o que fazemos mecanicamente regido pelo cotidiano, seria difícil lembrar
se dissera palavrão ou não. Apenas lembrava que sentiu decepção como se
tivessem arrancado um membro, um pedaço do seu corpo que não doía apenas
causando o mal estar de ter sidoi roubado ou, de ter perdido a carteira ou,
esquecido em algum lugar, onde?
Tanto é que ao perceber a falta ligou para a empresa na
esperança de que tivesse esquecido em cima da mesa. Como já era mais de dezoito
horas e trinta minutos.
- Alo!
- Alo! – respirou meio aliviado na expectativa.
- Alo! Com que você quer falar?
- Marcos? Tudo bem? – reconheceu a voz do supervisor.
- Diga, Osvaldo, o que você quer?
- Pô, cara, por favor, dê uma olhada na minha mesa e
veja se não esqueci a carteira em cima dela.
- Não, não tem nada, não tem carteira nenhuma. Por quê?
- Que droga! Perdi a carteira. Cheguei agora em casa e
dei falta dela.
- Que azar!
- Pois é! Quem sabe coloquei na gaveta novamente. Bom,
amanhã eu vejo. Obrigado, Marcos.
- Falou.
Desligou o telefone. No silêncio fibroso dos objetos,
procurou rememorar os seus últimos movimentos. Pensou nitidamente desde o
instante em que pegou a bolsa, num flash bem lento onde podia sentir a vibração
de cada ângulo do movimento. Mas, nada conseguiu, havia um instante bem pequeno
causando uma falha, uma brecha que ele não sabia como deixara escapar. E esse
instante é que lhe faltava para preencher a laguna e assim entender como fora
perder ou, ser roubado, se é que fora roubado, o que não acreditava muito não.
Tinha mais consciência de que perdera mesmo a carteira.
- Bom, não vai adiantar nada ficar parado interrogando
o diluído passado que o filme da vida não será rebobinado.
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