Pasmo! Essa é a palavra certa, pasmo!
Saiu do consultório estupefato – palavra bonita: estupefato – sem saber o que
estava sentindo. Andou paralelamente a parede, com a cabeça baixa quase
contando as passadas, tentando decifrar o sentimento. Mas na verdade o que não
conseguira decifrar naquele momento sabia agora. O médico fora categórico:
- O senhor vai precisar usar aparelho.
- Como, doutor?
- O senhor está com quase setenta por cento de perda auditiva.
- Mas estou escutando bem.
- O senhor que pensa que está esse zumbindo que diz ter é perda
auditiva.
- Mas doutor, nos dois ouvidos?
- Isso mesmo, nos dois ouvidos.
- O esquerdo ouço melhor que o direito.
- É a mesma coisa com os óculos. Você tem um problema no olho direito o
que precisa fazer? Usar óculos para os dois olhos, não é, se usar só para um
olho o que está bom vai enfraquecendo. Você nunca viu óculos com uma lente só.
- Está certo doutor, vou fazer o que
me diz.
- Toma leve esse cartão, os exames. Tenho mandado todos os meus
pacientes nesse laboratório que eles até me conhecem. Você não vai se
arrepender.
Usar aparelho? Que merda! – pensou indignado – Tudo bem, não sou mais
jovem, estou nos “enta”, mas surdez! Nunca pensei nisso. Agora teria que ouvir
as chateações.
- Ahn...
- Isso mesmo que você ouviu.
- Ahnnnnn... Que foi que o senhor disse?
- Para de gozação, menina. Ouviu o que eu disse, não ouviu?
- Falei para o senhor. Ouve a televisão e o som no último volume. E
quando assiste filme brasileiro! Precisa colocar legenda porque não ouve as
falas.
No dia marcado, quarta-feira às
catorze horas estava pontualmente no laboratório.
- Pois não? – perguntou a
recepcionista.
- Tenho hora marcada.
- Qual o seu nome?
- Osvaldo Luiz Pastorelli.
- Pode esperar um momento seu Osvaldo, fique a vontade.
- Obrigado.
Segundos depois, surgiu uma morena bonita, alta, cabelos lisos na porta
da sala de espera.
- Seu Osvaldo?
- Pois não.
- Queira me acompanhar.
Ele seguiu a morena admirando as curvas graciosas no balanceio do corpo.
- Por favor. Sente-se.
Acomodou-se na cadeira enquanto ela pegava o papel e caneta.
- O senhor trouxe o resultado do exame.
- Aqui está.
Passou os olhos pelo exame, marcou os dados em outro papel ao mesmo
tempo em que o enchia de perguntas.
- Há quanto tempo o senhor tem esse zumbido?
- Já trabalhou em lugar barulhento?
- Trabalha no que agora?
E outras séries de perguntas.
- Bem seu Osvaldo, o senhor vai precisar mesmo do aparelho.
E passou a me explicar os modelos, quais eram os melhores, quais as
vantagens deste ou daquele. O mais barato, conforme os lugares que ele fosse
teria que ser regulado manualmente, e os digitais regulavam automaticamente, e
quando a pilha ficava fraca, emitia um sinal, enquanto que o outro não, você
teria que adivinhar quando a pilha ficava fraca. Usou o mesmo exemplo do
médico, os óculos, que era preciso usar para os dois ouvidos. Mas seu eu
quisesse poderia usar um só, etc., que o preço de cada aparelho era de dois mil
e novecentos reais.
- Nossa! Tudo isso? Pensei que fosse uns mil e qualquer coisa.
- O senhor pode pagar em dez vezes sem juros ou em vinte quatro meses,
fazendo tudo por aqui, o senhor me dá seus documentos, preenchemos os papéis e
via Internet mandamos para o banco e o banco manda para o senhor o boleto, como
o senhor não trabalha com cheque.
Ele que sairá estupefato – palavra bonita, não acha? – do consultório
médico, saiu do laboratório atônito. Se pelo menos o plano de saúde cobrisse,
não precisaria ser o total, mas uma parte... Quem sabe, pensou salvando o
texto, e fechando o world.
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