quinta-feira, 18 de abril de 2024

Bom dia,Um caso de surdez.

 

Pasmo! Essa é a palavra certa, pasmo! Saiu do consultório estupefato – palavra bonita: estupefato – sem saber o que estava sentindo. Andou paralelamente a parede, com a cabeça baixa quase contando as passadas, tentando decifrar o sentimento. Mas na verdade o que não conseguira decifrar naquele momento sabia agora. O médico fora categórico:

- O senhor vai precisar usar aparelho.

- Como, doutor?

- O senhor está com quase setenta por cento de perda auditiva.

- Mas estou escutando bem.

- O senhor que pensa que está esse zumbindo que diz ter é perda auditiva.

- Mas doutor, nos dois ouvidos?

- Isso mesmo, nos dois ouvidos.

- O esquerdo ouço melhor que o direito.

- É a mesma coisa com os óculos. Você tem um problema no olho direito o que precisa fazer? Usar óculos para os dois olhos, não é, se usar só para um olho o que está bom vai enfraquecendo. Você nunca viu óculos com uma lente só.
- Está certo doutor, vou fazer o que me diz.

- Toma leve esse cartão, os exames. Tenho mandado todos os meus pacientes nesse laboratório que eles até me conhecem. Você não vai se arrepender.

Usar aparelho? Que merda! – pensou indignado – Tudo bem, não sou mais jovem, estou nos “enta”, mas surdez! Nunca pensei nisso. Agora teria que ouvir as chateações.

- Ahn...

- Isso mesmo que você ouviu.

- Ahnnnnn... Que foi que o senhor disse?

- Para de gozação, menina. Ouviu o que eu disse, não ouviu?

- Falei para o senhor. Ouve a televisão e o som no último volume. E quando assiste filme brasileiro! Precisa colocar legenda porque não ouve as falas.
No dia marcado, quarta-feira às catorze horas estava pontualmente no laboratório.
- Pois não? – perguntou a recepcionista.

- Tenho hora marcada.

- Qual o seu nome?

- Osvaldo Luiz Pastorelli.

- Pode esperar um momento seu Osvaldo, fique a vontade.

- Obrigado.

Segundos depois, surgiu uma morena bonita, alta, cabelos lisos na porta da sala de espera.

- Seu Osvaldo?

- Pois não.

- Queira me acompanhar.

Ele seguiu a morena admirando as curvas graciosas no balanceio do corpo.
- Por favor. Sente-se.

Acomodou-se na cadeira enquanto ela pegava o papel e caneta.

- O senhor trouxe o resultado do exame.

- Aqui está.

Passou os olhos pelo exame, marcou os dados em outro papel ao mesmo tempo em que o enchia de perguntas.

- Há quanto tempo o senhor tem esse zumbido?

- Já trabalhou em lugar barulhento?

- Trabalha no que agora?

E outras séries de perguntas.

- Bem seu Osvaldo, o senhor vai precisar mesmo do aparelho.

E passou a me explicar os modelos, quais eram os melhores, quais as vantagens deste ou daquele. O mais barato, conforme os lugares que ele fosse teria que ser regulado manualmente, e os digitais regulavam automaticamente, e quando a pilha ficava fraca, emitia um sinal, enquanto que o outro não, você teria que adivinhar quando a pilha ficava fraca. Usou o mesmo exemplo do médico, os óculos, que era preciso usar para os dois ouvidos. Mas seu eu quisesse poderia usar um só, etc., que o preço de cada aparelho era de dois mil e novecentos reais.

- Nossa! Tudo isso? Pensei que fosse uns mil e qualquer coisa.

- O senhor pode pagar em dez vezes sem juros ou em vinte quatro meses, fazendo tudo por aqui, o senhor me dá seus documentos, preenchemos os papéis e via Internet mandamos para o banco e o banco manda para o senhor o boleto, como o senhor não trabalha com cheque.

Ele que sairá estupefato – palavra bonita, não acha? – do consultório médico, saiu do laboratório atônito. Se pelo menos o plano de saúde cobrisse, não precisaria ser o total, mas uma parte... Quem sabe, pensou salvando o texto, e fechando o world.

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