No asfalto o sol brilhava
beijando os contornos das coisas que, ao evaporar-se em bolhas de suores,
destilava os sentimentos partidos e repartidos.
Sentia-se abatida no desencontro
das linhas, cuja direção se propusera seguir.
Ludmila sabia o que não poderia
negar o que sempre soubera, que seu eu é que não admitia que, entre os dois,
havia um amor forte demais.
Ludmila, a esquiva Ludmila, como
a chamavam, se rendeu ao inevitável, simplesmente se rendeu, não tinha força
suficiente para segurar o sentimento dos dois. Não conseguia nem segurar os
seus...
Na verdade, ela se equilibrava
nos sentimentos deles, ora num ora no outro, mantendo assim a balança no
centro, nunca deixando pender mais para um do que para outro.
Renegada se colocou em segundo
plano confiante de que fazia o melhor tanto para ela como para eles.
Satisfeita não estava é claro, no
entanto fazia de tudo para demonstrar. O que poderia fazer?
A voz pousada do alto falante
anunciou a hora do vôo. Aproximava o momento da despedida.
- Vamos Pedro – disse Armando.
- Vamos – respondeu Pedro.
- Ludmila tem certeza que é isso
que você quer?
- Sim, é isso mesmo – disse meio
nervosa com a carta na mão.
- Agora você está sozinha...
- Sozinha sempre estive.
- Tinha sua mãe.
- A mãe coitada, doente não era companhia,
não acha?
- Venha com a gente.
- Não, pai, impossível. Não quero
ser empecilhos entre vocês.
- Que isso, Ludmila. Amamos você.
- Eu sei, precisou depois de dez
anos para me dizer isso, não é?
- Olha como fala com o pai –
ameaçou Armando.
- Ela esta com razão.
Mais uma vez o alto falante
anunciou a hora do vôo.
- Adeus, filha se cuida.
- Cuida-se o senhor também.
- By mana.
- By mano, cuida do pai e se
cuida também.
- Falou.
Beijaram-se rapidamente. Ludmila
não esperou que eles sumissem na poeira de multidão. Apressada saiu do
aeroporto. Quando estava na calçada é que lembrou a carta. Esquecera de lhes
entregar a carta. Que droga!
Jogou-se para dentro de um táxi e
recolheu a teimosa lágrima que tentava escorrer na palma dos seus sentimentos.
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