Eles se beijavam longamente. Ele não
queria largar dela e, ela também parecia não querer largar dele, mas
precisavam. Ela na plataforma, ele segurando a porta com as duas mãos,
beijava-a com gosto sendo, é claro, retribuído. Ele não dava pelota para o
aviso do alto falante de não segurar a porta do trem. Nisso vendo um segurança
se dirigindo a eles, foi obrigado a largar a porta que se fechou com estrondo,
deixando-a na plataforma dando-lhe adeus. Exultante por ser correspondido, deu
uns três pulos, se pendurou nos ferros e gritou feliz da vida.
Os amigos, duas moças e um rapaz riam felizes junto com ele.
Moreno cabelo em pequenas tranças que balançava de um lado para o outro
conforme sua cabeça se movimentava. Seu amigo, sentado ao lado da Safira, ficou
em pé junto a ele e, os dois começaram a brincar, rindo e fazendo acrobacias
nos ferros do trem. O amigo dele se pendurou de ponta cabeça, chegando a
colocar as mãos no chão. Ele por sua vez, ficou também de cabeça para baixo,
suas tranças tocavam o chão. Safira ria com as brincadeiras deles. De onde eu
estava não dava para entender o que diziam, apenas apreciava as acrobacias,
pensei em puxar o celular e tirar umas fotos, mas fiquei com medo que não
gostassem.
Chegando na estação Sé, onde todos se
encontram e onde todos partem ou se perdem, nos perdemos uns dos outros. Eu e
Safira nos dirigimos à plataforma da linha vermelha, zona leste, e eles sumiram
na poeira da felicidade juvenil e nós, na poeira da poética felicidade de
apreciarmos a vida em toda a sua beleza.
Ainda bem que o metrô da zona leste
não demorou muito para chegar. Até a estação Belém onde a Safira desce e, até o
Tatuapé onde eu desci, a viagem transcorreu na maior tranqüilidade, apenas
quebrada pela nossa conversa sobre o recital que tínhamos participado na Casa
das Rosas.
Por sorte não precisei esperar por
muito tempo o ônibus. A fila estava mais ou menos comprida, achava que não
encontraria um lugar para sentar, mas por felicidade consegui um banco quase no
fundo do ônibus. A viagem transcorria normalmente, sem acidentes nenhum, apenas
umas moças, moças...! Isto é, umas meninas entre dezesseis anos a vinte anos,
sentadas no último banco, durante a viagem toda conversavam suas banalidades
juvenis. Contando uma para outra as aventuras amorosas, o que ganharam dos
namorados, rindo, falando alto, nada demais, apenas entre elas, não envolviam
quem estava por perto. Não importunavam ninguém. Mas um cara meio embriagado
parado nos degraus do ônibus, atrapalhando os que desciam, achou-se importunado
pela conversa delas, e num dado momento falou alto:
- Puta merda, como vocês falam? Caralho parem de falar. – disse para as
meninas.
- Oh boca suja.
E aí começou entre as meninas e o embriagado um bate boca surrealista.
- Não cansam a língua não? Vou mostrar
onde vocês podem colocar essa língua e ficarem quietas.
- Não ligam não, é um frustrado, seu problema é sexual, não tem
capacidade de arrumar mulher e fica enchendo o saco.
O pessoal ouvindo isso, de que o cara era um frustrado sexual, irrompeu
numa gritaria, chamando o sujeito de covarde, veado, é melhor descer e outros comentários.
- Vou mostrar para você onde devem
enfiar essa língua...
- Cala boca, seu filha da puta, vou enfiar a língua no cu da tua mãe. -
falou rispidamente uma das meninas.
Aí a gritaria foi geral, sai dessa, por essa não esperava, um a zero
para as meninas, foi o comentário.
Infelizmente não puder ver o desfecho da briga, estava chegando no meu
ponto e tive que descer. E enquanto me dirigia para minha casa, pensei:
- Cena igual a essa não presenciarei
no fretado.
Chegando a casa, ainda pude saborear um quentão, pipoca, paçoca, pé de
moleque, pois encontrei o pessoal em volta da fogueira.
Assim o sábado foi fechado com chave de ouro.
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