Ela era bonita, como era! Era não
porque tenha morrido, mas é que não a via mais de anos. E naquela época, logo
que entrou na firma, em que viu o grande letreiro branco na parede do enorme
prédio, determinou que aquele seria seu último emprego, caso fosse admitido, só
sairia dali aposentado. E até o momento estava cumprindo o prometido. Como
estava dizendo, naquela época, fazia pouco tempo de casado, talvez uns oito
meses mais ou menos, sua esposa, quando estavam no aconchego dos lençóis, lhe
perguntou:
- Onde você trabalha tem alguma mulher
bonita?
Sem pestanejar respondeu:
- A Judite.
- É bonita?
- Sim, uma morena de cabelos lisos, atraente, simpática, corpo
fenomenal, os homens babam por ela.
- E você, não baba?
- Não.
- Você se pudesse casaria com ela?
- Não.
- Por quê?
- Por que ela é muita areia para o meu caminhão.
- Mas se houvesse sei lá o que, uma maneira, você se casaria com ela?
- Não, já lhe disse que não.
- Por que?
- Por que meu coração escolheu você e não ela.
Na verdade, pensou ele, nossos caminhos eram diferentes e ele não tinha
um padrão de vida que ela estava acostumada a ter.
Naqueles dias em que a firma ficou no prédio da Rua Sílvia, poucas vezes
a via. Pois trabalhando no décimo primeiro andar, saindo só para o almoço e no
término do expediente, raramente a via. No primeiro ano de amigo secreto até
pensou que ela tivesse tirado ele, mas não fora. Aliás, avoado como era e
facilmente em esquecer os acontecimentos, não se lembrava nem de quem ele havia
tirado.
Depois que a firma veio para o Conjunto Nacional é que passou a vê-la
mais constantemente. Sendo ela secretária do Moreno, gerente da auditoria,
trabalhando numa sala de vidro, quando precisava mandar os documentos para o
arquivo morto, a intimidade entre eles foi crescendo. E quando ele começou a
escrever os bons dias, Judite vinha sempre comentar com ele, principalmente
quando se referia aos acontecimentos de caserna que relatava.
Além do que, na implantação do sistema
Metrofile, ela o chamava para que lhe explicasse os macetes e acabava fazendo o
serviço dela. Por mais que explicasse, Judite não entendia ou, fazia que não
entendia, nunca soube ao certo. Nas primeiras vezes pensou:
- Mas que cabeça dura, não entende um processo fácil de fazer.
Porém, mais tarde compreendeu, Judite fazia mesmo de propósito por algum
motivo o qual não soube qual era. Talvez para ter alguém com quem conversar
durante o expediente ou, para tirá-lo do serviço, pois vivia sempre dizendo:
- Ih! Não esquenta, fique um pouco
mais aqui, assim você muda de ar, de ambiente.
E isso passou a ser quase
constantemente, apesar de não ter muitos documentos, a auditoria estava como
todas as outras repartições no processo de eliminação de papéis e armários. A
partir desses momentos, conhecendo-a mais intimamente, ele passou a admirá-la,
a gostar mais dela.
Um dia veio à bomba que surpreendeu a todos. Judite tinha sido demitida.
Foi uma consternação entre os seus amigos íntimos. Ele ficou triste, sem saber
o que dizer tímido como era o que conseguiu foi escrever um poema para ela.
Um poema que ele guarda com carinho.
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